A recuperação espírita do verdadeiro cristianismo

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Por Paulo Henrique de Figueiredo

Allan Kardec escreveu no conjunto de sua obra, por mais de mil vezes o nome de Jesus. Os ensinamentos dos espíritos que constituem a doutrina espírita tratam dos mais diversos temas da cultura humana. Como relatamos na obra Revolução Espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec, há um complexo trabalho de Kardec e dos pesquisadores espíritas que o auxiliaram para validar os conceitos fundamentais da doutrina espírita originária dos espíritos superiores, com recursos da lógica e das ciências filosóficas. As incontáveis comunicações espirituais, diálogos e as centenas de páginas das obras de Kardec que dele resultam têm o propósito essencial de resgatar a doutrina moral de Jesus, em seu sentido original: “O essencial está em que o ensino dos espíritos é eminentemente cristão; apoia-se na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, na justiça de Deus, no livre-arbítrio do homem, na moral do Cristo” (O Livro dos Espíritos, 151).

Segundo os espíritos, há apenas um guia e modelo de perfeição moral que a humanidade pode considerar na Terra. As leis de Deus estão escritas em nossa consciência e foi pressentida por todos que meditaram sinceramente sobre a sabedoria, em todos os tempos. A questão é que os homens, em meio às imperfeições que adquirem, esquecem as leis.

Mas o problema maior foi de que muitas lideranças, tomadas por sentimentos terrenos, ensinaram aos homens falsos princípios, e “por terem confundido as leis que regulam as condições da vida da alma com as que regem a vida do corpo” é que “muitos têm apresentado como leis divinas simples leis humanas estatuídas para servir às paixões e dominar os homens” (LE, p.298). Um exemplo dessa mistura de leis está na hipótese hedonista de que a dor e o prazer definem o bem e o mal. Outra, é a de que o amor de si mesmo ou egoísmo é a medida da moral. Essas ideias confundem as leis do corpo, necessárias à sua conservação, e as leis da alma, que, regidas pela vontade livre, determinam a evolução intelecto-moral.

Segundo Allan Kardec, a concepção de Deus entre os antigos era muito genérica; eles divinizavam os seus grandes homens. Havia manifestações de como no espiritismo, mas eles eram interpretados como pertencentes a uma classe dos deuses, construindo as alegorias que formaram a tradição mitológica:

Tal é, em substância, o princípio da mitologia; os deuses não eram, pois, senão os espíritos ou as almas de simples mortais, como os de nossos dias; mas as paixões que a religião paga lhes emprestavam não dão uma brilhante ideia de sua elevação na hierarquia espírita, a começar pelo seu chefe Júpiter, o que não os impedia de saborear o incenso que se queimava em seus altares. O cristianismo despojou- -os de seu prestígio, e o espiritismo, hoje, reduziu-os ao seu justo valor. Todo o mundo antigo ou o paganismo foi marcado pelos falsos princípios (RE61, p.83).

A partir daí, costumes equivocados nascidos do orgulho e do egoísmo de uma elite dominante tomaram lugar nas culturas pagãs, justificando a opressão e a dominação de seus povos.

Entre os hindus, o orgulho dos sacerdotes os levou a considerar os indiví- duos mais simples e ignorantes como escória da humanidade, classificando-os como párias impuros, indignos de passar sua sombra sobre os pés dos demais pertencentes às castas.

Muitas mulheres da China milenar representavam sua submissão e servidão ao homem enfaixando seus pés desde criança, para que, deformados, ficassem com a metade de seu tamanho. As constantes dores extremas dos pés minúsculos a incapacitavam para trabalhar, tanto em casa quanto no campo, tirando a capacidade física e tornando-as como peças de adorno.

priests of AmanPara os egípcios, apesar de sua grande sabedoria mantida no interior de seus templos pelo domínio da escrita e leitura, mantinham seu povo na ignorância, e rebaixavam ardilosamente as multidões servidoras ensinando-as a adorar animais e estátuas de pedra como se fossem deuses, em gigantescas procissões, sem lhes revelar a grandeza realidade do Deus único.

Na Grécia, Platão, reproduzindo o preconceito vigente, considerou a reencarnação como mulher ou como camponês um castigo e uma desonra para o homem, que assim atrasaria em milhares de anos a recuperação espiritual de uma alma. Aristóteles tomou a escravidão como natural e eterna, que em verdade é fruto do egoísmo e do orgulho humano, e do desprezo pelos não gregos, considerados bárbaros.

Mas, dizem os espíritos nas obras de Kardec, o erro nasce da confusão que se faz entre as leis da alma e as leis do corpo. E esse equívoco se estendia para o mundo espiritual. Quando as tradições antigas divisavam a vida futura, imaginavam as dores orgânicas como castigo dos maus e os prazeres a premiação divina do justo. No lugar de se mortificar a alma, pela superação das imperfeições, ensinam os homens a mortificar o corpo, deixando-o com fome, agredindo-o, como se a punição da carne fosse fonte de valores morais. Explicam os espíritos, porém, que “as ideias só com o tempo se transformam; nunca de súbito”:

De geração em geração, elas se enfraquecem e acabam por desaparecer, paulatinamente, com os que as professavam, os quais vêm a ser substituídos por outros indivíduos imbuídos de novos princípios, como sucede com as ideias políticas. Vede o paganismo. Não há hoje mais quem professe as ideias religiosas dos tempos pagãos. Todavia, muitos séculos após o advento do Cristianismo, delas ainda restavam vestígios, que somente a completa renovação dos povos conseguiu apagar (LE, p.361).

E então, diante de todos esses preconceitos culturais enraizados no mundo antigo, os espíritos concluem que “o Cristianismo tinha que destruir; o espiritismo só tem que edificar”. A mensagem de Jesus foi a mais completa reforma das questões morais e sociais do mundo antigo. De uma só vez, demonstra a igualdade de todos os homens, mulheres e crianças como “filhos de Deus”, quebrando as barreiras da relação opressiva entre serkardecvos e senhores, homens e mulheres; deu às crianças o respeito que merecem em sua formação; oferecendo o Evangelho para toda a humanidade, sem privilégios, castas ou hierarquias, derrubou a equivocada e orgulhosa separação entre os povos. Em Jesus, todos são dignos, todos são almas, todos merecem respeito e oportunidades iguais para seu desenvolvimento. O espiritismo recupera os ensinamentos de Jesus, e, por esse motivo, tem como pedra angular aceitar a todos, sem divisões. Não é mais uma religião, mas um lugar comum, uma doutrina acessível para todos, como é, em verdade, o Evangelho de Jesus, afirma Kardec:

O espiritismo, ao contrário, nada vem destruir, porque assenta suas bases no próprio cristianismo; sobre o Evangelho, do qual não é mais que a aplicação. Concebeis a vantagem, não de sua superioridade, mas de sua posição. Não é, pois, como o pretendem alguns, quase sempre porque não o conhecem, uma religião nova, uma seita que se forma à custa das mais antigas; é uma doutrina puramente moral, que  absolutamente não se ocupa dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças, pois não impõe nenhuma. E a prova disto é que tem aderentes em todas, entre os mais fervorosos católicos, como entre os protestantes, os judeus e os muçulmanos. O espiritismo repousa sobre a possibilidade de comunicação com o mundo invisível, isto é, com as almas. Ora, como os judeus, os protestantes e os muçulmanos têm almas como nós, o que significa que podem comunicar-se tanto com eles quanto conosco, e que, conseguintemente, eles podem ser espíritas como nós. Não é uma seita política, como não se trata de uma seita religiosa; é a constatação de um fato que não pertence mais a um partido do que a eletricidade e as estradas de ferro; é, insisto, uma doutrina moral, e a moral está em todas as religiões, em todos os partidos (VE, p.61).

Colocando a liberdade como base de sua teoria moral, Jesus inverteu a relação entre Criador e criatura, pois revoga a imagem de um Deus vingativo, representante de um só povo, capaz de castigar eternamente seus filhos e os inimigos; e institui um Deus justo, de infinito amor, que registra na consciência dos homens uma lei universal para que a compreendam e a exerçam voluntariamente, num processo evolutivo natural, contínuo e sem fim, consagrando assim a moral autônoma e superando a moral heterônoma do mundo antigo.

Trazendo à humanidade a bandeira da fraternidade, Jesus demonstrou que não basta cada um cuidar de si mesmo, mas é responsabilidade do forte proteger os fracos, do rico auxiliar os pobres, do sábio ensinar os ignorantes, do saudável sanar os adoentados, dos novos protegerem os velhos e as crianças. Cabe a todo aquele que tenha conquistado um talento fazer uso dele para todos à sua volta. Todos os homens são irmãos e a lei natural que rege a vida é a fraternidade.

A originalidade da moral de Jesus surpreende e choca pela ousadia de sugerir que devemos oferecer a outra face ao que nos atinge, que é nossa meta amar aos nossos inimigos. Surpreende quando toca a ferida dos leprosos, abraça mendigos imundos, estende sua mão às mulheres abandonadas, acolhe e alimenta respeitosamente os miseráveis. Deixa até mesmo atônitos seus apóstolos quando pede que tragam as crianças até ele. Quando foi necessário, Jesus levou sua doutrina aos templos, à casa do rico, aos sábios e poderosos. No entanto, seu púlpito preferido eram as margens dos rios, a sombra das árvores, o solo batidos dos casebres, onde o pão era repartido e os copos passavam de mãos em mãos.

Jesus demonstrou aos homens a religião natural em sua maior simplicidade. Deus não nos pede a vigília e a procissão, a adoração de joelhos ou a repetição maquinal de rezas dos costumes de adoração do mundo pagão. Não pede cargos, roupas, símbolos, estátuas nem prédios. Basta uma simples prece a Deus, num gesto que demonstre agradecimento e reconhecimento de sua justiça, ou requisitando força e entendimento nas horas difíceis, o que está ao alcance do todos, sem intermediários. Além disso, agir com fraternidade para com todos em sua sentença máxima: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, é o mais valoroso ato de crença.

A transformadora doutrina de Jesus, exemplificada por seus atos, bem compreendida, representa o caminho para a definitiva revolução moral da humanidade, marcando a passagem do velho mundo para o admirável mundo novo. Após sua germinação de dois mil anos, o Espiritismo surge em tempo de colheita desse pensamento original cristão. O terceiro milênio será determinante para a regeneração da humanidade. Quem renascer verá!

2 Comentários


  1. A reparação e a expiação não são as consequências de uma determinada falta? Ou não ? E a lei de causa e efeito?
    Os desastres coletivos?
    E tantos exemplos nas obras de Chico Xavier não seriam faltas cometidas anteriormente?

    Na obra O céu e o inferno há o código penal da vida futura e os exemplos de expiações terrestres como o sujeito que queimou alguém na fogueira e depois foi banhado por solvente em uma fábrica. O outro enterrou a mulher viva também foi enterrado vivo, comeu até a mão.

    Enfim. Quem padece pela espada, pela espada padecerá não seria mais ou menos isso?

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    1. A tradição religiosa do velho mundo considera o mecanismo heteronomo da punição divina pelo erro cometido. Todavia, nem todo ato é um mal, pois quando o indivíduo não é consciente do que faz, não é responsável moralmente. A imperfeição surge quando o ato equivocado é consciente. Nesse caso, essa impefeição é inerente ao sofrimento. Esse sofrimento vai durar até que o indivíduo reconheça que age mal e se arrepende, por livre vontade. Arrependido, pedirá a oportunidade de expiar e, por meio de bons atos, reparar o mal que fizera até então. Esse processo representa a moral autonoma. A superação da imperfeição se dá pela escolha das provas, pois o espírito deseja conquistar qualidades superando suas imperfeições. É um ato de liberdade, um processo consciente. Explica Kardec, em O céu e o inferno: ““Reconhecer os erros é já um mérito e um passo efetivo para o bem: também por isso, a sua situação, sem ser venturosa, deixa de ser a de um Espírito infeliz. Arrependendo-se, resta-lhe a reparação de uma outra existência”. O espirito infeliz é aquele que faz o mal apesar dos avisos de sua consciência, em virtude disso sofre. Sofrerá nas encarnações seguintes se não reconhecer seus erros e se arrepender, desejando superar essa condição. Quando isso acontecer, terá a oportunidade de escolher as provas das reencarnações seguintes, por meio das expiações e reparações, que só ocorrem a partir do desejo consciente do espírito em se modificar. E, nesse momento, é feliz por antever o futuro melhor, que por seu esforço e dedicação irá conquistar. Repare que nada nesse processo faz referência a um castigo de Deus, pois representa um ato de autonomia. Esse é o fundamento da moral espírita.

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