Um exame crítico de Revolução Espírita

Tempo de leitura: 30 minutos

Foi uma longa espera

Antonio Leite, Nova Iorque

O meu primeiro contacto com o escritor e pesquisador Paulo Herique de Figueiredo aconteceu em 2010. Não o conheço pessoalmente, o contacto se deu através da leitura da sua magistral obra “Mesmer – A Ciência Negada e os Textos Escondidos.”

Ao percorrer naquela ocasião as páginas da supracitada obra, eu me via pasmo e me sentia envolvido por um grande sentimento de alegria. A enorme sagacidade demonstrada na elaboração do seu maravilhoso trabalho de pesquisa, aliada às circunstâncias “coincidentes” pelas quais a obra foi concretizada é o que desenhava a minha postura mental naquela ocasião.

A partir de então eu passei a acompanhar de perto a trajetória do escritor e pesquisador espírita, bem como o seu trabalho em prol da disseminação do Espiritismo em sua base primeira e fundamental, Allan Kardec e sua obra.

Em 23 de Outrubro de 2013 eu ouvi pela Internet uma palestra que ele proferiu no ciclo de conferências promovido por ocasião das comemorações do Centenário de J. Herculano Pires. Nessa fala ele fez uma análise crítica da obra do Professor Herculano Pires, “Curso Dinâmico de Espiritismo – O Grande Desconhecido.”

O meu interesse pelo trabalho de pesquisa que o Paulo Henrique vinha fazendo, que já era enorme a partir da leitura da sua obra sobre Mesmer, multiplicou-se substancialmente depois de ouví-lo nesta palestra. Isto ocorreu especialmente pela notícia promissora que ele nos deu à época: “Estou me preparando para fazer uma obra nos mesmos moldes do que fiz sobre Mesmer a respeito de Kardec, que deve ser lançada no ano que vem”.

Dentre os vários aspectos da sua abordagem naquela ocasião, alguns atraíram muito a minha atenção. Registro a seguir alguns trechos da sua fala:

“Eu devo todo esse trabalho de pesquisa que eu tenho feito à inspiração que me deu o esforço do Herculano Pires. (…)

Muitos pesquisadores hoje que não estão mobilizados como sendo um corpo único, estão espalhados pelo Brasil inteiro, estão fazendo pesquisas profundas, inclusive na universidade. E o Herculano tem sido o patrono de quase todos eles. Todo mundo que hoje faz uma pesquisa mais séria a respeito do Espiritismo, passou pela leitura dos livros do Herculano Pires. Há então uma semente plantada pelo Herculano que já está frutificando em meio a pesquisadores e historiadores, espíritas e não espíritas. Também existem não espíritas pesquisando o Espiritismo. Na minha opinião nas próximas décadas o Espiritismo provavelmente vai começar a deixar der ser o grande desconhecido. (…)

E eu afirmo aqui que o Herculano foi um precursor e um precursor intuitivo, porque ele não teve acesso a essas informações todas. E posso dizer hoje, pela leitura que eu tenho das obras dele e pela recuperação que eu tenho participado em se fazer na Hostória do Espiritismo, que Herculano Pires representa a resposta dada pelo pensamento de Kardec aos desvios que ocorreram, que começaram ocorrer um ano depois da morte de Kardec. Na França nós tivemos um desvirtuamento do entendimento do que é o Espiritismo pelos próprios pares, pelas próprias pessoas que conheceram o Espiritismo de Kardec e deram continuidade à sua obra. Isso começou a ocorrer um ano depois que morreu Kardec. Já ocorria em sua época, mas isso ocorria na periferia, os indivíduos se escondiam. Quando morreu Kardec eles tomaram conta da estrutura da Sociedade de Kardec, da Revista Espírita e inverteram os conceitos propostos pelo Espiritismo. De tal modo de que de 1870 pra cá, nós vivenciamos a Idade Média do Espiritismo, da mesma forma que ocorreu a Idade Média do Cristianismo. Depois da morte de Jesus os seus ensinamentos foram esquecidos e muitas instituições inverteram os conceitos e as idéias que eram as idéias de Jesus. Com o Espiritismo ocorreu a mesma coisa, uma inversão dos conceitos.”

A temática objeto da abordagem do Paulo Henrique em sua palestra é um assunto do meu maior interesse e vem sendo objeto dos meus estudos por décadas. O meu despertar para o mesmo deu-se a partir das minhas leituras das obras do Professor J. Herculano Pires. Chega ser intrigante para um principiante dos estudos espíritas verificar a forma enfática com que o escritor e filósofo espírita paulista abordava o tema. Como sabemos ele aborda o assunto de forma direta e mais especificamente na obra objeto da palestra do Paulo Henrique, porém o tema é insistentemente salientado ao longo de quase toda a sua vasta obra.

A peroração anterior é para justificar o título desta minha resenha.

Enfim, acabo de fazer a primeira leitura de Revolução Espírita – A Teoria Esquecida de Allan Kardec, e aqui venho registrar as minhas modestas porém sinceras impressões sobre o extraordinário trabalho de pesquisa, ao qual o autor refere-se humildemente como apenas um “romance histórico”.

Quando digo “primeira leitura” é bem a propósito, pois esta é uma daquelas obras que merece ser lida, relida, estudada e reestudada. De fato ela passará a ser um dos meus livros espíritas de cabeceira para ser estudado ao lado das Obras Fundamentais, da Revista Espírita de Allan Kardec e das extraordinárias obras do Professor J. Herculano Pires e outras obras clássicas da literatura espírita. Existe uma grande simbiose e um propósito idêntico entre o trabalho de pesquisa do Paulo Henrique e o massivo trabalho espírita missionário do nosso saudoso filósofo e escritor espírita paulista.

É impressionante a forma metódica, didática, escorreita e o estilo atraente pelo qual o autor se desincumbiu do objetivo inicial proposto em seu trabalho de pesquisa: “pesquisar a natureza do espiritismo por meio da história e da filosofia da ciência”; e “dar continuidade a essa investigação quanto ao estabelecimento do movimento espírita no Brasil.”

Inicio a minha análise pela proposição segunda, a parte biográfica e histórica relacionadas aos personagens e períodos precedentes e posteriores à concepção da Ciência dos Espíritos. A perspicácia do autor em carrear para o bojo do seu fenomenal trabalho de pesquisa, as informações que lá encontramos e muitas delas inéditas, é de fato admirável. Um enorme volume de informações que tratam de aspectos de fundamental importância sobre vida do codificador, sua educaçao e formação humanística desde o berço. De igual modo informações substanciais sobre seus familiares mais próximos, aqueles que foram os responsáveis diretos pela sua formação humana e cultural. E ainda sobre outros aspectos de relevância igualmente essencial à construção da sua obra de pesquisa, quer seja o contexto histórico e cultural da época que precedeu a elaboração da doutrina espírita, bem como do período em que a mesma era gradativamente elaborada. Essas informações são absolutamente vitais para um melhor entendimento do processo de elaboração da ciência espírita pelo codificador. Esse conjunto de informações abre enormes janelas que nos possibilitam a ter um melhor e mais profundo entendimento sobre a abrangência e o escopo da Ciência dos Espíritos, bem como da sua marcha para a transformadora Revolução Espírita que já se processa e continuará pelo futuro da humanidade.

Obviamente que não irei mencionar aqui detalhes específicos sobre essas novas informações. Prefiro deixar aos leitores o prazer de palmilhar as páginas desta obra inebriante para descobrirem por si mesmos. Posso todavia assegurar-lhes que será uma agradável e enriquecedora aventura. Não há motivos para se intimidarem com o volume da obra, pois o estilo elegante e coloquial do autor torna a leitura muito prazerosa.

Revelo a propósito aqui um fato que sempre me intrigou em meus estudos espíritas ao longo de décadas. Tendo em vista o número razoável de biografias existentes sobre Allan Kardec, sempre me pareceu inconcebível o fato de não conhecermos absolutamente nada sobre o período da sua vida que vai do seu nascimento ao ingresso dele no instituto de educação de Pestalozzi, em Yverdon na Suíça. Da mesma forma a carência de informações mais detalhadas sobre os familiares mais próximos, como se isto fosse algo impossível de se conseguir e sem maior importância no contexto da sua vida e da sua obra. Afinal de contas o codificador não viveu na época de Cristo, há dois mil anos atrás. Apenas um pouco mais de duzentos anos nos separa desse período da sua vida. Além disso ele viveu numa época em que houve as maiores conquistas de progresso científico e cultural da era moderna, antes da nossa era atual.

Pois bem! Em seu excepcional trabalho de pesquisa o Paulo Henrique desmonta o intrigante quebra-cabeça e nos brinda com um volumoso montante de informações sobre este e outros períodos da vida de Allan Kardec. Todavia, ressalte-se que grande parte das informações encontradas em pesquisas por ele elaboradas ao longo de duas décadas, as quais vão muito além das que foram carreadas para este livro, são oriundas de fontes primárias. E são tantas que ele próprio chegou a nos asseverar, em uma de suas palestras disponível na Internet que “dariam para fazer a biografia de toda a família de Allan Kardec”.

Essas enormes lacunas sobre a vida do codificador, seus familiares e outros aspectos que certamente o influenciaram em sua formação holística e posterior produção literária no campo da educação, bem como, e especialmente, na sua hercúlea missão de compilar a ciência espírita, realmente é algo inusitado para mim e sempre me intrigou ao extremo. E não foi por falta de diligência de minha parte em tentar preenchê-las.

Há apenas alguns meses tomei conhecimento de uma obra que me pareceu inicialmente um grande achado à preencher este vácuo. Obviamente eu a adquiri e a li com a maior avidez. Trata-se de uma recente biografia do codificador, Allan Kardec et son époque, escrita por Jean Prieur em 2014 e traduzida para o português em 2015 (Allan Karrdec e sua época), 2ª edição Lachâtre, a que adquiri. Segundo informações constantes do próprio livro, trata-se de um experiente escritor, já com cem anos de idade e que “publicou cerca de sessenta livros, entre obras de literatura e ensaios, muitos de temática espírita”.

Todavia a promessa não se concretizou, pouquíssimo foi acrescentado em relação às muitas biografias que já conhecemos. Por exemplo, logo de início vemos uma nota de rodapé na página 7 relativa aos pais de allan Kardec, a qual informa: “Seus pais residiam em Bourg—

Bourg-en-Bresse

en-Bress”. Mais à frente na página 11 lemos em outra nota de rodapé o seguinte: “Por sua postura política em relação à Revolução Francesa, ele foi preso em 21 de fevereiro de 1794 e liberado em 20 de abril do mesmo ano (fonte: Reformador, abril de 2014). Jean-Baptiste foi dado como desaparecido por volta de 1807, quando o exército de Napoleão, comandado pelo general Junot, posicionara-se na Espanha para invadir Portugal.”

Não somente as fontes do autor arrefeceram os meus ânimos com relação à sua biografia, como tanto mais ainda afirmações como as que seguem, dentre outras: “Cento e cinquenta anos depois, ainda se fala dessa religião única e unívoca”, p. 9; e “Kardec, em vida, nunca se achou um messias e, quando falava da terceira revelação, do terceiro testamento, ele pensava no Consolador anunciado por Jesus, no Espírito de Santidade e de Verdade que deve retornar para um pentencostes verdadeiramente universal.”Com uma linguagem dessa, fica difícil saber de qual Kardec está se falando.

No tocante ao aspecto importantíssimo da história do movimento espírita, tanto na França e imediatamente após a morte do codificador, bem como dos primeiros passos do movimento espírita no Brasil, o trabalho de pesquisa do Paulo Henrique revela o mesmo nível de ineditismo e também nos brinda com uma avalanche de informações novas e inquestionávis, porque originárias de fontes primárias.

Na parte quinta da sua admiravelmente bem arquitetada obra de pesquisa, “Parte 5: A causa espírita à frente”, nos deparamos com situações lamentáveis e até denúncias estarrecedoras que nos causa muita tristeza. Em um dos tópicos desta seção, “5.5 Os desertores, ou a crônica da fraqueza humana”, encontra-se o registro das primeiras tentativas de minar as bases da nova doutrina em seu período de implantação na França, enquanto ainda estava entre nós o codificador.

Até se entende a resistência de alguns espíritos fortes e combativos no plano das idéias, sejam quais forem as paixões ou os motivos que os levem ao debate. É o caso relatado no livro em relação a postura de dois desses interlocutores, o barão de Guldenstubbé e o advogado lionês J. B. Roustaing, cujas atitudes o próprio autor justifica nesta sensata assertiva: “Na maioria das vezes, não se trata de má fé, mas de um ofuscamento da verdade pela capa do orgulho, que lhes cobre as vistas.” O último desses interlocutores é muitíssimo conhecido no movimento espírita do Brasil por ser o promotor da obra “Os Quatro Evangelhos ou Revelação da Revelação”, psicografada pela médium Émilie Collignon. Ela tem de fato sido ao longo de décadas motivo para as maiores dissensões dentro do movimento espírita, não só no Brasil como alhures. Não obstante a mesma foi trazida ao nosso país pela corrente majoritária do movimento espírita organizado que a patrocina desde início do século passado, bem como impõe em seus estatutos o estudo da mesma na seara doutrinária.

A Revista Espírita faz o registro das enormes resistências e dos embates que o codificador teve de enfrentar em seu trabalho missionário, na tarefa de coligir os princípios da ciência espírita. Eles partiam de pessoas ou grupos externos interessados em impedir que a ciência tomasse corpo, porque ela claramente colocava em perigo as “verdades” impostas à sociedade por esses interesses difusos. Por mais penoso que fosse esses ataques, eles eram necessários para tornar ainda mais sólida a doutrina, pois esta teria necessariamente que ser aberta e exposta à luz do dia em toda sua clareza.

O que é difícil de se conceber, é que o codificador tivesse que enfrentar os mais rudes e traiçoeiros golpes a partir de alguns dos seus próprios pares e colaboradores. E nesta seara a pesquisa do Paulo Henrique é também enriquecedora em suas fontes primárias de informações.

Pedindo licença aos leitores, ele faz o registro de denúncias gravíssimas da médium Berthe Fropo, vice-presidente da União Espírita Francesa e “amiga do casal Rivail desde o início das lutas, tendo ficado ao lado de Gabrielle quando viúva”. Essas denúncias são relatadas em “fonte primária de relevante importância”, ou seja, em obra de autoria da médium, intitulada Beaucoup de lumière (Muita Luz). As denúncias se tornam ainda mais e deploráveis sob todos os pontos de vista, quando somos informados pelo autor da pesquisa de que a inciativa da médium foi tomada “seguindo orientação do espírito de Allan Kardec”, a qual foi dada nestes termos:

“É absolutamente indispensável fazer o histórico da União, e você, mais do que qualquer outro, cara amiga, está qualificada para este feito. Sua posição a coloca acima de todos, pelas relações constantes que tem mantido com minha querida mulher. É bom que se saiba e que não se possa desmentí-lo. É preciso, sobretudo que se saiba bem que os fatos que revelou são infelizmente muito verdadeiros, e que, de longe tenha maledicência e calúnia, não é infelizmente senão um reflexo da verdade. Reze por esses infelizes cegos; a punição não se fará tardar, continue a luta, é necessário vencer, estamos consigo, queremos a felicidade de todos nossos irmãos e o triunfo da verdade: nós conseguiremos. Obrigado por sua boa afeição, ela nos é preciosa. Allan Kardec (FROPO, 1884, p.440.”

Dentre as denúncias constantes no livro da médium, das quais o Paulo Henrique faz menções apenas de passagem em sua obra, destacamos uma em particular que merece o repúdio e a condenação de todo espírita, pelo caráter detestável de sua natureza pérfida. O registro é feito nesses termos: “Na execução de seu testamento, conta Fropo, o senhor Vautier, tesoureiro e administrador da Sociedade, sem fazer um inventário, sob as vistas de Leymarie, executou um verdadeiro auto-de-fé, ao queimar lotes de papéis e cartas deixados por Allan Kardec, cuja importância ele mesmo havia registrado em A gênese”.

Tomo a liberdade de transcrever o trecho mencionado em A gênese, de Allan Kardec:

“Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do espiritismo moderno, onde se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos. Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e do ciúme? (G, p. 39).”

O Paulo Henrique informa-nos ainda em sua obra de pesquisa, o seguinte: “Segundo a denúncia de Fropo, desde a morte de Rivail, o senhor Pierre-Gaetan Leymarie, que passou a exercer as funções de redator chefe e diretor da Revista Espírita, além de gerente da Livraria Espírita, no exercício de suas funções, passou a não seguir as orientações da esposa de Rivail, Amélie Boudet, alterando completamente os rumos propostos por Allan Kardec, a ponto de desfigurar essa instituição.”

Ainda a despeito da proposição segunda dos objetivos da pesquisa do autor, “dar continuidade a essa investigação quanto ao estabelecimento do movimento espírita no Brasil”, a minha aprovação ao trabalho de pesquisa é absolutamente enfática. Ao lado dos meus constantes esforços de estudante dos aspectos doutrinários do espiritismo via obras de Allan Kardec, sempre valorizei muito o estudo dessa questão, o que no meu entender é altamente aconselhável a todo espírita. Sei perfeitamente não se tratar de tarefa muito fácil. Neste terreno, a literatura existente que não esteja em sintonia com as sutis e caudalosas orientações da corrente majoritária do movimento espírita organizado em nosso país, não são de fácil acesso. Só a encontramos em sebos, cópias emprestadas de amigos, ou em alguns blogs que dedicam precioso tempo para registrar a história do movimento. Só nos cabe aplaudir esses solitários trabalhadores da seara espírita, pela grande importância dos seus trabalhos de pesquias e valia que os mesmos representam para os nossos estudos e o futuro do espiritismo.

A garimpagem feita pelo Paulo Henrique nesta seara é admirável e enriquece sobremaneira a sua obra de pesquisa. As informações de fontes primárias contidas nos tópicos “5.6 Os descaminhos da historiografia espírita; e 5.7 A difícil travessia: o espiritismo no Brasil” da parte quinta do seu livro, são extremamente alentadoras. Elas nos revelam fatos históricos tão inéditos e motivadores, que são capazes de minar a tristeza e o acabrunhamento que nos invade a alma, quando tomamos conhecimento das infames denúncias feitas nos relatos da obrinha de autoria da médium Berthe Fropo. Isto porque as luzes cristalinas e racionais dos ensinos da espiritualida superior, consubstanciados nas páginas da obra imorredoura de Allan Kardec, nos dá a convicção e a certeza de que a Verdade sempre prevalecerá, apesar da incúria e do orgulho dos homens.

Não farei aqui qualquer menção especificamente aos fatos extraordinários da vida dessas duas “figuras quase desonhecidas, que quando raramente são citadas, constituem algumas linhas”. Me refiro aqui às informações trazidas ao bojo da obra de pesquisa do Paulo Henrique, as quais referem-se aos notáveis pioneiros do movimento espírita em nossa pátria: Domingos José Gonçalves de Magalhães e Manoel José de Araújo Porto-Alegre. Seria inoportuno me antecipar ao prazer que o leitor certamente terá, assim como eu tive, ao ler essas páginas inebriantes da fabulosa pesquisa.

Registro apenas a minha inexcedível alegria e satisfação ao percorrer as páginas destes dois tópicos e tomar conhecimento de informações tão únicas e inéditas. Além do ineditismo, elas também nos revelam de forma dramática, a visão lúcida desses pioneiros em suas atitudes de perfeita harmonia com os princípios fundamentais da Ciência dos Espíritos, tão bem erigidos na ciência espírita sob a égide do Mestre Allan Kardec. Não temos como não ficar pasmos com o fato triste de que essas informações nos tem sido ocultadas por mais de um século.

Finalmente exaro minhas despretenciosas notas, o meu mais fervoroso endosso à esta preciosa obra de pesquisa, referindo-me ao seu aspecto de maior relevância e expresso pelo autor nesta proposição: “pesquisar a natureza do espiritismo por meio da história e da filosofia da ciência”. Já na Introdução de sua obra, e em destaque na contra-capa da mesma, registramos e ousada assertiva do autor, a qual poderá eventualmente ser vista por alguns apressados como demais ousada, o que se verá na leitura e estudo da obra não ser o caso: “Sejam opositores ou simpatizantes, adeptos ou divulgadores, todos desconhecem o verdadeiro espiritismo”.

O próprio codificador Allan Kardec nos alertou sobre a magnitude e a abrangência da Ciência dos Espíritos, definindo-a como a Ciência do Infinito. Já na Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, em O Livro dos Espíritos, assim ele nos advertiu: “Que ninguém, portanto, se iluda: o estudo do Espiritismo é imenso; liga-se a todas as questões da metafísica e da ordem social; é todo um mundo que se abre ante nós.”

A advertência não é nova. O Professor J. Herculano Pires a enfatiza em toda sua obra e de forma mais clara e enfática no opúsculo “Curso Dinâmico de Espiritismo – O Grande Desconhecido”.

Com uma boa dose de humildade, mesmo que estejamos entre os mais dedicados estudiosos do espiritismo, não é difícil entendermos que o Paulo Henrique está com a razão ao fazer a assertiva precedente. Pelo que já expusemos ao longo deste texto acho que é o suficiente para justificar o acerto da sua afirmativa. Todavia, fazemos questão de inserir aqui, ainda para dar sanção à assertiva do autor da obra de pesquisa, uma dramática constatação feita pelo filósofo espírita de Avaré, em um de seus excepcionais opúsculos espíritas:

“As obras de Kardec são a única fonte verdadeira do saber espírita. Quem não ler e estudar essas obras com humildade e vontade legítima de aprender, não conhece o Espiritismo. Os que realmente estudam e compreendem a doutrina sentem-se humildes diante da sua grandeza e não pretendem passar por mestres. São colegas mais aplicados que apenas se esforçam para ajudar os companheiros de escola no aprendizado necessário. A obra de Kardec ainda não foi suficientemente estudada. A maioria dos espíritas estudiosos não conseguiu ainda penetrar na essência dessa obra, que não foi escrita para um século, mas, para muitos séculos. Infeliz daquele que pretende ser o mestre de todos. Na verdade é o cego do Evangelho que conduz outros cegos ao barranco. Precisamos ter muito cuidado para não entrarmos nessas filas de cegos ou nos colocarmos na posição ridícula de cego a guiar cegos.” [O Mistério do Bem e do Mal – Kardec e a Ciência Espírita, Correio Fraterno, 3ª Edição, 28, pp. 138-139].

A constatação a que chegamos ao final de uma primeira leitura desta obra maravilhosa, é que havia até agora uma substancial lacuna de informações indispensáveis sobre o contexto histórico e cultural, tanto da época em que a Ciência dos Espíritos nos foi legada e metodicamente estruturada na ciência espírita pelo codificador, bem como informações posteriores inerentes ao desenvolvimento do movimento espírita. E essas informações são absolutamente fundamentais para que possamos ter um  entendimento mais acurado do panorama abrangente da conceituação e dos princípios da ciência espírita.

 

O Paulo Henrique nos brinda com esse conjunto impressionante de informações que ele granjeou para o bojo da obra Revolução Espírita, o que ele fez de forma metódica,  estilo impecável e numa linguagem coloquial acessível a qualquer leitor, trasformando a leitura do livro num exercício de deleite.

 

As poucas inserções que eu tomei a liberdade de carrear das páginas do livro para esta minha resenha, as quais referem-se a aspectos inerentes a uma das proposições estruturais da obra, fatos históricos e biográficos, já são suficientes para justificar o apreço que devemos ter pelo denodo do autor em seu extraordinário trabalho de pesquisa.

 

As orientações e os esforços que o Paulo Henrique sabiamente nos legou através das páginas enriquecedoras do seu belo livro, é o que reputamos como o ponto de culminância deste seu maravilhoso trabalho de pesquisa. Elas de fato consubstanciam-se em ferramentas de exegese segura e benéfica para o nosso melhor entendimento dos conceitos inerentes aos princípios fundamentais da ciência espírita. É oportuno enfatizar que a substancial lacuna a que nos referimos anteiormente, de fato nos impedia de ter um melhor entendimento sobre aspectos fundamentais do espiritismo. A propósito faço referência aqui, por exemplo, à informação que nos foi dada pelo codificador de que os tempos eram propícios ao entendimento e aceitação das revelações dos espíritos superiores, as quais foram eregidas em princípios fundamentais da ciência espírita. Não teríamos de fato condições de entender a afirmativa em sua inteireza, antes das informação trazidas nesta obra acerca do tema.

É importante frisar que quando me refiro a excelência desta obra como uma preciosa ferramenta de exegese da Ciência dos Espíritos, não estou desconhecendo ou negando o fato óbvio de que os elementos intrínsecos da teoria do conhecimento espírita, tão sabiamente erigidos pelo mestre Allan Kardec, constituem-se em primazia como os instrumentos de análise e interpretação primeira da obra espírita. Podemos ainda acrescentar neste particular a existência de extraordinários trabalhos que nos podem orientar na exegese segura da doutrina espírita,  os quais nos foram legados ao longo dos anos por grandes estudiosos e pesquisadores do espiritismo. Dentre estes podemos destacar a vasta obra do Professor J. Herculano Pires, o “Apóstolo de Kardec”, bem como obras de autores clássicos como Léon Denis, Gabriel Delanne, Gustave geley, Ernesto Bozzano, Deolindo Amorim, Hermínio Miranda, entre outros.

 

A constatação óbvia a que chegamos ao final da leitura desta preciosa obra de pesquisa, é que precisamos de fato revisitar constante e dedicadamente as obras de Allan Kardec, para podermos avançar no entendimento mais seguro e acurado do conjunto de princípios da Ciência dos Espíritos. Certamente a obra do Paulo Henrique é mais uma ferramenta preciosa para nos ajudar nesses estudos. Ela nos oferece uma oportunidade para revitalizar o nosso entendimento sobre a vasta gama de princípios da ciência espírita, o que nos possibilitará a ter uma visão mais clara e concreta do nosso papel de agentes racionais e moralmente autônomos, no processo de transformação moral do nosso Planeta.

 

Não haverá milagres ou atalhos capazes de nos inserir na verdadeira revolução espírita que de fato já se processa em nosso mundo, a não ser arregaçar as mangas e atender ao apelo que nos foi feito pelo Espírito da Verdade nestes termos: “Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo”.

 

Nesta mesma linha é também oportuno atentar para as advertências que autor nos dirige ao longo de toda a sua obra de pesquisa, dentre as quais destacamos as que seguem abaixo:

“Kardec execrou a chefia quanto ao seu papel no espiritismo, pois, segundo ele, ‘em tudo isto fizemos o que outros teriam podido fazer como nós’. Ou seja, ele agiu de tal forma que sua atitude pudesse ser universal. Fica mais evidente o quanto é inaceitável qualquer atitude messiânica e profética de médiuns e divulgadores, estabelecendo uma relação de liderança e submissão com seus ingênuos seguidores.

Para ser espírita, segundo esses critérios, é preciso abandonar a preguiça de confiar que lhe digam no que deve saber ou acreditar. Abandonar a acomodação aos hábitos encanecidos. Libertar-se de pensamentos massificados e enraizados do velho mundo. O espírita é racional e moralmente autônomo. A sua é ‘fé racional’’. [p. 76]

 

“A expressão ‘pela força das coisas’ tem o sentido de causa natural, portanto inevitável. Há uma abrangência na visão futura de Kardec, quanto às relações entre o espiritismo e o conhecimento humano, que evidencia um processo revolucionário, uma mudança de paradigma onde o materialismo da ciência é superado naturalmente, pelo valor conceitual do conhecimento espírita. É evidente que, para que isso ocorra, o conteúdo da doutrina espírita não pode ser apresentado à sociedade na embalagem hermética de uma religiosidade dogmática ou misturado a discursos místicos.” [p. 191]

“O fato é que o corpo de conhecimento espírita precisa ser compreendido, como ocorre em qualquer outra ciência, seja física, psicologia ou biologia. O conteúdo dessas áreas do conhecimento pode ser ensinado desde a crianças pequenas, até a jovens, adultos, por um esforço didático. No entanto, aquele que se predispõe a ensinar precisa, previamente, ter a mesma dedicação que os estudantes das demais ciências. Em sendo uma forma de conhecimento, o espiritismo pede igual cuidado e seriedade. No entanto, considerando o cenário atual, pela pouca compreensão que há de sua originária Doutrina, todos são estudantes! Por sua natureza especial, professores mesmos de espiritismo são os espíritos superiores que elaboraram sua doutrina.” [p. 551]

Finalizo a minha despretenciosa análises sobre a obra Revolução Espírita, A Teoria Esquecida de Allan Kardec, citando passagem da lavra do Professor J. Herculano Pires, a qual no meu entender sanciona o acerto da assertiva supramencionada, feita pelo autor da excepcional obra de pesquisa.

“O Espiritismo não é doutrina feita para sábios, mas para todos os que tenham um pouco de bom senso e de humildade. Os sábios, também, estão sujeitos à mistificação, pois há mistificadores sábios nas trevas, e muitos doutores andam por aí a pregar tolices em nome de um suposto progresso do Espiritismo, de sua suposta atualização. Ninguém é professor de Espiritismo. Todos somos aprendizes, todos. E, geralmente, maus aprendizes que, quando pretendem ensinar, deturpam a doutrina.” [O Mistério do Bem e do Mal – Kardec e a Ciência Espírita, Correio Fraterno, 3ª Edição, 2008, p. 138].

 

Antonio Leite – Nova Iorque

 

3 Comentários


  1. Sou um português de Portugal, que procura aprender o mais e o melhor possível do muito que a cultura espírita pode dar a todos os que por ela se interessarem. Depois de ter tomado conhecimento a respeito da obra de Paulo Henrique de Figueiredo, tentei de imediato encomendar os seus livros para poder lê-los na íntegra, infelizmente sem êxito, para já.
    Tendo comprado livros em vários países pela Internet, acho muito estranha a dificuldade aparente de se importarem livros do Brasil. Mas não vou desistir!…
    Graças à enorme vitalidade comunicativa dos brasileiros, de que PHF é um expoente muito notável, pude configurar, através dos artigos publicados neste site e tendo começado a ouvir na íntegra os vídeos com as suas palestras, uma visão de conjunto do extraordinário trabalho que tem para nos oferecer.
    Já não sou jovem e conheço de há muito tempo a cultura espírita, à qual tenho dedicado um bom número dos mais recentes anos de investigações e leituras, como interessado independente.
    Tanto eu como minha mulher, que está associada com gosto a este estudo, estamos a encontrar uma feição brilhantíssima e inteligentemente renovada da cultura espírita através da bem documentada obra de PHF.
    Infelizmente não vemos com um olhar muito optimista a situação cultural do meio espírita português. A visão orientada para horizontes progressistas e animada de um potencial filosófico fortemente renovador do trabalho de Paulo Henrique de Figueiredo, parece-nos ter verdadeiro potencial de transformação.
    No que estiver ao nosso alcance é nosso propósito divulgar, junto dos nossos amigos e seguidores, da melhor forma que nos for possível, a magnífica novidade deste precioso trabalho.

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    1. José da Costa e Maria da Conceição, a dedicação à pesquisa, lendo milhares de fontes, com a intenção de compreender e recuperar a vanguardista doutrina espírita em seus esquecidos conceitos fundamentais tem como objetivo primordial provocar o interesse e a conscientização do publico interessado. A manifestação de vocês, que nos chega atravessando o oceano, é muito grata, estimulante, confortadora. Já temos registrado o entusiasmo de leitores de diversos cantos do Brasil, assim como dos EUA, Argentina, Cuba, Chile, muitos países da Europa. Há, evidentemente, quanto ao Espiritismo, um interesse global. É dever dos espíritas corresponder a essa busca apresentando a doutrina com fidelidade a Kardec e aos espíritos superiores que a ensinaram. É a esse contingente que almejamos participar. Quanto à avaliação de vocês pouco otimista quanto ao meio espírita português, nos cabe repassar o ensinamento valioso de um espírito familiar quando apresentamos a ele uma avaliação semelhante; Diz ele: – Quando a escuridão parece se fazer completa, a luz de uma pequena vela faz importante diferença!
      Mergulhem no estudo! façam o entusiasmo se transformar em capacitação, em fé racional. Deixem-se contagiar pela proposta da autonomia moral, alavanca extraordinária que será o instrumento fundamental para fazer surgir o mundo novo. Sejamos verdadeiros espíritas. Será a proliferação das pequenas velas a responsável pela regeneração da humanidade. Obrigado e um grande abraço!
      Quanto aos livros, recomendo que acessem o site candeia.com, eles estão preparados para fazer chegar os livros até Portugal.

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      1. Caríssimo Paulo Henrique de Figueiredo,
        Já consegui a ajuda de um amigo brasileiro para receber finalmente os seus livros, sem as complicações das editoras…
        Estamos contentíssimos. Felicidades a todos e continuação do magnífico trabalho

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