Os terríveis castigos de Deus?

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Por Paulo Henrique de Figueiredo (autor de Revolução Espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec)

A humanidade, doutrinada por falsos ensinamentos, aceita terríveis desigualdades como se fossem castigos de Deus. Os espíritos superiores denunciam essa farsa. Conheça a inovadora Revolução Espírita

Jamais a humanidade se conformou em aceitar conhecer apenas o que está ao alcance de seus sentidos. Uma inquietação se apodera diante dos mistérios da morte. Nós sobrevivemos? Se isso ocorre, não há de ser pelo corpo, existe, pois, uma alma? E se ela existe, como é? Vem de onde? Para onde vai?

Há, também, outra saída para essa dúvida. Está em afirmar que a morte é o fim de tudo. Mas as ideias materialistas deixam um vazio no coração, abrem um abismo no futuro. Desse caminho se afasta a maioria, então o anseio para o desconhecido, e, consequentemente, as ideias espiritualistas como única saída possível.

As mais antigas doutrinas religiosas se estabeleceram no início das chamadas civilizações. Para analisar os primeiros livros sagrados, que fundamentaram as religiões primeiras, como a egípcia e o Livro dos mortos, a Bíblia no judaísmo, os Vedas na índia, é preciso pensar como se raciocinava naquele tempo, relembrar os paradigmas então aceitos, para que façam sentido as hipóteses consideradas as mais lógicas e, por isso, incorporadas à tradição. Vejamos uma das mais fundamentais hipóteses espiritualistas, a queda das almas. Vamos tentar pensar como eles pensavam, como se voltássemos no tempo. Isso vai permitir depois regressar ao nosso contexto, e então questionar alternativas, atualmente possíveis em vista da maior amplidão que temos do entendimento das leis universais.

jesusVale destacar que alguns visionários, em todos os tempos, questionaram as doutrinas estabelecidas, propondo alternativas, como Sócrates, Buda, Giordano Bruno, e o grande reformador, Jesus. Mas, apesar de compreendidos pelos mais próximos seguidores, suas palavras foram deturpadas, adaptadas, e assimiladas aos preceitos correntes, às doutrinas oficiais e aceitas desde a antiguidade. De modo que, para nosso exercício, cabe questionar a mais arraigada e ancestral tradição. É preciso mergulhar nas origens.

Nos primeiros tempos, imaginava-se o universo como uma realidade estática, criada por um ser divino. Aristóteles, por exemplo, olhando para o céu, como milhares de estrelas circulando na abóbada regularmente, conclui pelo senso comum, de que a Terra está no centro do Universo, e tudo gira à sua volta, formando esferas, concluindo que é assim a realidade. Essa visão das coisas determinava também como se pensava a metafísica, o que está além do observável, a alma. Acreditava-se que, sendo Deus um ser superior e perfeito, teria criado as almas também perfeitas, à sua semelhança. Não se podia conceber a divindade criando algo imperfeito, errado,  isso iria ferir a lógica. Então partimos daí. E os livros sagrados, desse modo, respondem à primeira questão, de onde vem a alma? Vêm do paraíso, de um lugar perfeito. Mas surge logo um problema, porque o mundo é cheio de sofrimentos, porque existe a morte, a doença, as guerras, as dores, todo o mal, enfim? Não podendo ser uma criação da divindade, só poderia ser culpa das próprias criaturas. Seguindo esse raciocínio, imaginou-se a figura da queda. O homem original, pelo erro, pelo pecado, caiu em desgraça, sofreu uma queda do paraíso, e, castigado, veio parar neste mundo de sofrimento para expiar seus erros. Caso errassem novamente, aqui neste mundo, as próximas vidas renovariam os castigos, seriam ainda piores, até que o arrependimento e a purificação os façam retornar à pureza inicial, e a alma poderia assim reencontrar-se com as origens e viver um futuro feliz. Essas ideias formam uma doutrina coerente com os fatos aceitos naqueles tempos, possuindo uma estrutura lógica que atendia aos anseios da razão. Todos os mitos foram teorias plausíveis quando criados.

Com algumas variações, todas as primeiras doutrinas concordam com esse princípio de que a alma foi criada perfeita por Deus, e por seus erros vivenciou a queda, para explicar os sofrimentos deste mundo. Praticamente todas aceitavam também o conceito da reencarnação. Desse modo, a grande maioria das pessoas, camponeses, trabalhadores braçais, e mesmo as mulheres, eram considerados aqueles que mais erraram, perdendo a sabedoria e capacidades originais da alma, eram os degredados, degenerados, sofrendo por sua culpa os maiores castigos, por terem cometidos mais e maiores erros no passado. Desde milhares de anos, esses mitos ancestrais justificam as desigualdades como naturais e inevitáveis.

O Espiritismo é a única doutrina que fundamenta suas ideias metafísicas em bases modernas do entendimento. Esse é um ponto basilar para compreendê-lo. Quase todos os espíritas vivenciaram na infância uma formação moral direcionada pelas doutrinas religiosas milenares. É preciso vivenciar um esforço reflexivo para assimilar as novas bases conceituais que dão à doutrina espírita sua maneira única de explicar as dúvidas sobre a alma. Vejamos.

Os espíritos superiores vão nos ensinar que a teoria da queda é uma inversão da realidade que leva aos maiores equívocos quanto à realidade do universo. Preste bem atenção: as almas não foram criadas perfeitas por Deus. As primeiras vivências das almas são no que há de mais simples na natureza, e, progressivamente, assumem formas mais complexas, seguindo um processo evolutivo que vai “do átomo ao arcanjo”, da mais simples partícula ao espírito superior. É exatamente o inverso do que se pensava na antiguidade. Vamos observar então as consequências desse fato novo.

Em suas primeiras vidas humanas, a alma é simples e ignorante. Ou seja, não tem desenvolvimento moral, nem intelectual. Desse modo, não tendo sido criada perfeita, precisa conquistar as qualidades, as capacidades, o entendimento, todas as possibilidades infindáveis do saber e do agir por seu esforço, vida após vida. Os indivíduos mais simples são aqueles que viveram menos vidas. Também vão aprender aos poucos, e alcançarão a condição de espíritos superiores, pois esse é o destino de todas as almas.

A contradição do ser humano tem explicação. Evoluindo desde o mineral, vegetal e animal, a alma, nessas fases, adquire a capacidade de gerir a forma, aprende pelos instintos, induzida pelos condicionamentos. Atingindo a condição humana, entre uma encarnação e outra, a vida espiritual tem novo sentido. Com seu perispírito, no mundo espiritual, reconhece sua individualidade, aos poucos desperta para sua razão de ser. Deve desenvolver por sua vontade seus pensamentos e sentimentos, conquistando o saber, a moral, e a harmonia. Isso reflete o fato de que a harmonia universal reflete de Deus o sábio, o bom e o belo.

Mas então, porque existem, desde as primeiras civilizações, indivíduos mais inteligentes e capazes, que formaram as elites do velho mundo? Os espíritos superiores explicam que cada mundo vivencia um processo também evolutivo, que vai do primitivo ao planeta feliz. Nesse processo milenar, a humanidade se inicia entre os primitivos povos hominídeos. O início é igual para todos. Mas nem todos escolhem agir de forma solidária. Os hábitos podem se tornar imperfeições, quando conduzidos pelo orgulho e pelo egoísmo. Alguns indivíduos escolhem esse caminho. A maioria, por sua vez, vai trabalhando, servindo, percebendo que a única saída para que todos fiquem bem é a solidariedade. O segredo da felicidade está em cooperar, fazendo aos outros aquilo que deseja para si mesmo. Quando um planeta chega a essa condição, vivencia um salto evolutivo quanto à moral. Tomemos o nosso planeta Terra como exemplo. Já fomos um mundo primitivo, conhecemos a civilização, vivenciamos a evolução tecnológica e hoje convivemos com a possibilidade de nos tornarmos autossuficientes, mas convivemos com o orgulho e egoísmo que corroem a harmonia. Em outros planetas que viveram esse momento critico, explicaram os espíritos superiores à Allan Kardec, aquelas humanidades escolheram o caminho da solidariedade, da justiça e caridade, e assim vivenciaram sua regeneração. Os espíritos, porém, que se mantém obstinados em seus desejos de poder, em sua soberba, em seus caprichos e privilégios, não encontram mais ambiente, e são exilados para um planeta primitivo, com a missão de auxiliar o surgimento da civilização naquele orbe.

Esses exilados, então, passam a viver entre os povos primitivos originais do planeta primitivo que recebem como nova morada. Surge, assim, uma elite inteligente e dominante em meio aos simples. E, em suas intuitivas lembranças, criam os arquétipos de um paraíso perdido, de uma queda vergonhosa, de uma culpa que os consome. Tudo isso é uma lembrança real dos fatos vividos. Mas por uma interpretação orgulhosa, invertem os fatos, dizendo que todas as almas foram criadas perfeitas, e, errando, caíram, vivendo num vale de lágrimas. Generalizam para toda a humanidade uma vivência que foi sua, em particular. Estendem às massas de almas simples, que vivem suas primeiras vidas e tateiam se progresso, as mazelas de alguns espíritos que viveram o exílio. Generalizam para a humanidade a experiência vivida por apenas alguns. Justificando pela queda da alma, falsamente, as desigualdades causadas, em realidade, pelo orgulho e egoísmo de um grupo. Foi assim que surgiram os dogmas. E esses espíritos sábios e orgulhosos, olhando para as grandes massas de almas simples desse planeta primitivo, ensinaram a elas suas falsas ideias, dizendo: vocês foram os que mais erraram no passado, por isso devem nos servir como escravos, para sofrer e aprender, para só futuramente, pelo perdão de Deus, recuperar suas condições originais. Afirmaram isso também para as mulheres, dizendo que elas são condições inferiores, castigos divinos.

Essa mentira permanece sendo narrada desde milênios! Herança terrível. Arrasta as gerações pela culpa. Foram esses falsos dogmas que criaram a própria incredulidade, pois diante dessas ideias equivocadas sobre a vida, alguns preferiram não acreditar em nada. O fanatismo provocou a incredulidade. E o Espiritismo surge num grande momento de mudança da humanidade, como alternativa verdadeira e lógica, tanto contra o fanatismo quanto o materialismo.

Os sofrimentos dos simples, causados pelos hábitos sociais de subserviência, atendendo aos caprichos e privilégios de uma elite, não são naturais nem castigos de Deus. São efeitos do orgulho e egoísmo pela qual os povos foram estabelecidos. E cabe à humanidade e não a Deus reverter essas condições. A vida naturalmente proposta pelas leis divinas é fundamentada pela solidariedade, cooperação, onde todos trabalham de acordo com suas aptidões, merecendo da sociedade reconhecimento pelo seu valor, seja um cozinheiro, uma professora, um agricultor, engenheiro ou médico. Nada justifica as desigualdades sociais. Assim que os indivíduos, cansados das injustiças, investirem na educação pela autonomia, quando se fizer o bem pela alegria de ser útil, sem castigos ou recompensas, sabendo que essa é a lei universal que dá à humanidade a condição feliz que é seu destino, vivenciaremos a regeneração da humanidade.

Foi exatamente isso que Allan Kardec enxergou quando conheceu os ensinamentos dos espíritos. Ele coerentemente se entusiasmou com o poder da mudança de entendimento que sepulta os falsos ensinamentos do velho mundo pela doutrina libertadora dos espíritos:

“Ocorrerá uma transformação da Sociedade; uma nova ordem de coisas, novos hábitos, novas necessidades; modificará as crenças, as relações sociais; fará, ao moral, o que fazem, do ponto de vista material, todas as grandes descobertas das ciências” (Revista Espírita de 1865).

Estamos diante de uma nova grande revolução. Ela ocorre pela adesão voluntária e consciente de cada um de nós. É revolução que o Espiritismo prepara por seus inovadores conceitos, quando bem compreendidos. Será a revolução espírita!

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