O que é preciso saber sobre o mundo espiritual, antes de chegar lá. E saiba — você vai. Incluindo: “Confissões de um morto”

Tempo de leitura: 8 minutos

Por Paulo Henrique de Figueiredo, autor de Mesmer – a ciência negada do magnetismo animal e de Revolução Espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec.

O espírito Lammenais, comenta um fato observado comumente no mundo dos espíritos:

 “Lá, vemos Espíritos que, muito tempo mesmo depois de sua morte, se creem ainda vivos, vagam ou acreditam se ocuparem de suas tarefas terrestres, isso acontece porque se iludem completamente sobre a sua posição e não se dão nenhuma conta de seu estado espiritual”.

Está lá na Revista Espírita de 1863. Já não basta enfrentar as dificuldades do dia-a-dia aqui neste mundo, anos a fio, e o camarada, depois de morto, ao invés de se preocupar com as novidades do além, distraído, continua vivendo o cotidiano da vida que se foi. Certamente, seguirá reclamando da conta da luz, do preço do feijão, dos empresários e políticos corruptos, ou até fará sua fezinha na loteria, sem saber que se ganhar não vai mesmo encher os bolsos. Vagando por aí, ao atravessar as ruas, o indivíduo, sem reconhecer-se como alma penada que é, olha atento para um lado e outro antes de pisar na faixa, morrendo de medo de ser atropelado e ir-se desta para melhor. Ou seja, sem saber que já não é mais desta, não se dá ao trabalho de encontrar coisa melhor, e fica na mesma. Como escapar dessa roubada?

O espírito Lammenais, quando vivo foi entre nós um padre liberal muito preocupado com as necessidades do povo, sendo um dos precursores do socialismo. Escreveu o livro Palavras de um crente, contra a ambição dos reis, nobres e governantes opressores, convocando os trabalhadores a se unirem em busca de seus direitos. Para ele, a exploração dos proletários é pior do que a escravidão. Para construir um futuro melhor, seria preciso educar o povo para que reconheça a legitimidade de seus direitos e lutar para abolir os privilégios e monopólios, sem violência, mas com o uso consciente do voto. Quando apontou a necessidade de igualdade política e um rígido controle dos políticos e administradores, na obra O país e o governo, foi parar na prisão por um ano, em 1840. Não é possível conhecer sua história hoje sem imaginar como seria sua atuação em nossos tempos de lava-jato, delações, desmandos e privilégios. Afastou-se da igreja quando se conscientizou dos abusos ao entrar no Vaticano. Foi eleito pelo povo para a Assembleia Nacional em 1848 adentrando à política. Se aposentou em 1851 e, fato inevitável, morreu em 1854, aos 72 anos. É incrível, mas chegou ao mundo espiritual, ambientou-se rapidamente, e alguns anos depois, quando Allan Kardec começou a conversar com os espíritos, estava pronto para ajudar.

Pois bem, entre aqueles espíritos que morrem e não sabem disso, há os que acreditavam em vida na ideia materialista do nada. No entanto, como se acreditam vivos, conservam a crença no nada depois da morte, que para eles não chegou! Lammenais explica que isso não será para sempre, chegará o dia que essa vida de alma vagante cansa, se esgota, os detalhes vão revelando o engano, e um dia cai a ficha. Diz ele:

“Chega um momento onde, do outro lado o véu se rasga, e onde as ideias materialistas são inaceitáveis”.

Lammenais, liberal pensador, depois da morte, demonstra os mesmos valores de vanguarda no outro mundo, analisando a vida espiritual. Suas palavras são até poéticas:

“O suplício dos materialistas é lamentar as alegrias e as satisfações terrestres, eles que não podem ainda nem compreender nem sentir as alegrias e as perfeições da alma; e vede o abaixamento moral desses Espíritos que vivem completamente na esterilidade moral e física, de lamentar esses bens que fizeram momentaneamente a sua alegria e que fazem atualmente o seu suplício”.

Esse é o mais difícil ponto a ser aceito depois da morte. Toda luta pelos privilégios, pelo esforço em acumular nos cofres dinheiro, joias e bens, perde todo o sentido e valor (isso mesmo, colega, esta frase foi para mencionar os políticos ficha suja). Mas, por outro lado, existem aqueles que são simples no viver, mas soberbos ao desprezar a vida após a morte, divulgando com sorriso nos lábios a ideia do nada, os materialistas das ideias. Lammenais comenta sobre eles, quando se conscientizam da realidade do espírito quando reconhecem estar mortos no além:

“é verdade que sem ser materialista pela satisfação de suas paixões terrestres, pode-se sê-lo mais nas ideias e no espírito do que nos atos da vida. São aqueles que não ousam aprofundar as causas de sua existência”.

Usando uma figura genial, conclui sobre o destino deles:

“Aqueles, no outro mundo, serão punidos do mesmo modo; nadam na verdade, mas não são por ela penetrados; seu orgulho rebaixado fá-los sofrer, e lamentam esses dias terrestres onde, pelo menos, tinham a liberdade de duvidar”.

Lembrei-me de um caso interessante, ocorrido com uma amiga evangélica e médium, isso mesmo, mediunidade ocorre com todo mundo, até com quem vai na igreja ou não acredita. Uma noite, começou a ver um clarão de luz em seu quarto, e um cheiro forte de defunto. Ficou espantada e se encolheu na cama, puxando o lençol, e olhando entre os dedos para o vulto que surgia. Era um homem, e curiosamente flutuava, sem que se pudesse ver os pés. Era seu cunhado, Jairo, morto, enterrado e rezado já a algumas semanas.

— Maria, sou eu, vim pedir ajuda, morri, mas não consigo subir. — Disse o morto aflito.

— Mas que cheiro é esse, Jairo? — Toma coragem e pergunta a cunhada morta de medo (ou será viva de medo?).

— Isso é por conta do meu corpo embatumado, que não consigo largar. Mas tenho que lhe contar algo que me atormenta, não para de pensar nisso um minuto que seja. — Explica Jairo, de seu jeito, o tormento que vive. E continua:

— Morri e guardei comigo um segredo, que por vergonha nunca contei, mas que agora me deixa aflito. Dois meses passados, fiquei sem saída com uma dívida inconfessável. Não sabia mais o que fazer, pensava no pior, quando lembrei de um dinheiro guardado, era para o aluguel que a minha irmã poupou do salário, como sempre fazia regularmente. Peguei escondido, gastei e me calei, sem saber que dias depois cairia morto assassinado, por uma bobagem de fim de baile. Agora estou aflito e desesperado, pois ela está acusando uma sobrinha, pensando mal da pobre menina, sem cogitar da verdade, que guardo comigo. Maria, você que pode me ver e ouvir, é minha esperança de corrigir esse deslize que me corta o coração, me prende entre os vivos como correntes de um condenado! — Conclui, com a voz tremendo e em lágrimas.

Maria já não temia por mais estranho que fosse. Era muito amiga de Jairo, passavam horas conversando no quintal, rindo da vida. Agora era hora de ajudar o amigo, sem se preocupar com explicações ou temores. Além do mais, nunca soube nada sobre o caso relatado. Nem sabia que um dinheiro havia sumido.

No dia seguinte procurou a irmã de Jairo, relatando todos os detalhes da aparição, do segredo e da revelação. A moça só chorava. Se o Jairo tivesse pedido, teria entregue o dinheiro, dando bronca, mas ajudava, disse ela. Não precisava fazer isso. E a sobrinha, coitada? Certamente um dia iria jogar na cara da menina e criar um problema de relacionamento sem ter razão. A menina dormia preocupada, sendo acusada sem culpa. E o Jairo, morto que sabia que estava morto, não conseguia viver sua vida de alma, preso entre os vivos, amarrado ao cotidiano nosso de correr atrás do dinheiro para saldar as necessidades deste mundo. Remorso é o maior dos problemas da outra vida. E pode ser por uma coisa que aqui, parece pouco. E a Maria, por segurar o pavor e dar atenção ao fantasma, levando a sério e não achando que era um demônio a ser expulso, mas seu cunhado, vivinho da silva, como nos velhos tempos de conversa na varanda, fazendo um último apelo à amiga.

Esse é o maior dos bons conselhos para quem quer chegar bem ao mundo dos espíritos. Sabe aquela coisa que fica martelando na cabeça, a cobrança da consciência, que vem de vez em quando ao encostar a cabeça no travesseiro, não deixando dormir? Resolva o quanto antes. Seja como for: Converse, confesse, retribua, perdoe, peça perdão, ajude, deixe ajudar, faça o que for necessário, com segurança e boa vontade. Mas não deixe para depois. Pois qualquer um de nós está sujeito a não levantar da cama no dia seguinte, pois chegou a derradeira hora. E não há nada mais inevitável do que ir desta! mas que seja então, ir desta… para bem melhor!

3 Comentários


  1. Olá Paulo,
    Boa. noite
    Muito esclarecedor o seu artigo. Tenho feito tudo o que você fala.
    Uma situação me incomoda muito:como ter lucidez?
    Teria alguma idea? Outra situação: somos obrigados a reencarnar? Caso tenha conseguido de alguma maneira quebar o carma, seria possível ir para outro nível?
    Teria alguma ideia do que fazem os espiritos puros ( não ao nivel de Jesus, pois os relatados no livro do espiritos são arcanjos, serafins como espiritos puros).
    A mãe de André Luiz era uma pessoa comun, como foi para esferas superiores? E na revista espirita fala de mozart morandoem jupiter um planeta feliz, saberia de algo?
    Desculpe tantas perguntas, mas o centro que frequento perguntas não São bem vindas.
    Grata.
    Angela
    .

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    1. A leitura das obras de Allan Kardec, que inclui as revistas espíritas, vai nos dando uma lucidez, uma compreensão da teoria espírita, que permite responder a essas e tantas outras perguntas com segurança. Esse é um trabalho metódico e extenso ao qual se conquista como todos os outros conhecimentos, aos poucos.
      Veja: não somos obrigados a reencarnar, todos os seres do universo vivem esse processo evolutivo. Desde o mineral, vegetal e animal. O ser humano, consciente durante esse processo, vai adquirindo livre-arbítrio e inteligência por seu esforço, vida após vida. A reencarnação não é um castigo, mas uma oportunidade! Como reencarnamos desde as vidas animais (nesse período anterior, de forma inconsciente), e aos poucos, ganhando virtude e sabedoria, vamos passando mais tempo na espiritualidade, promovendo a harmonia universal. Vamos perdendo a necessidade da reencarnação progressivamente, até que, lá na frente, ela não será mais necessária. Viver em progresso, neste e no outro mundo, está relacionado com a libertação dos dogmas, e adoção da moral autônoma como diretriz de conduta. Não cabe temer a Deus, mas perceber sua providência e bondade infinita. Todas as esferas são boas, o que pode deixar um espírito mal é viver em culpa, revolta, medo, apego. A felicidade não é um destino final, mas a condição natural daquele que busca agir no bem com liberdade, por todo o caminho!

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  2. Não canso de ler e ouvir o Paulo Henrique. Gostaria muito de adquirir o livro Revolução Espírita, para usar nos estudos em grupo que fazemos na casa espírita que trabalhamos, mas hoje não tenho condições para comprar. Espero que não esgote tão cedo. Parabéns e obrigado!

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