A reviravolta de Hermínio Miranda sobre Mesmer

Tempo de leitura: 14 minutos

Por Paulo Henrique de Figueiredo

Allan Kardec definiu o Magnetismo Animal criado por Franz Anton Mesmer junto ao Espiritismo como “ciências irmãs”, sendo que uma não poderia ser compreendida sem a outra. Nesse panorama, as descrições de Mesmer como um charlatão burlesco se estendem, denegrindo também a doutrina espírita. Inevitavelmente. Como poderia surgir de um indivíduo interesseiro, farsante, exótico, uma ciência séria, bem fundamentada, ao ponto de servir de base à doutrina dos espíritos superiores?

Franz Anton Mesmer (1734-1815)

Tendo estudado as obras kardecianas desde jovem, quando me deparei com esse enigma das ciências gêmeas, não vi outro caminho senão ir a fundo à pesquisa das suas origens. Entretanto, nada encontrei vasculhando bibliotecas, livrarias e sebos, que me esclarecesse. Por outro lado, compulsando enciclopédias e manuais, invariavelmente achava uma descrição estranha dos métodos e práticas de Mesmer. Não me deixei influenciar. Nunca poderia aceitar uma condenação de sua figura apenas acessando fontes secundárias. Pessoas que me contavam o que leram de outros que propuseram antes. Seria fundamental ter acesso às obras primeiras, notadamente o que o próprio Mesmer tivesse escrito de seu punho. Essa foi a meta.

Entretanto, nesse período preparatório da pesquisa, algo intrigante me tocou. Uma obra fundamental de um dos maiores escritores espíritas de todos os tempos oferecia uma visão depreciativa de Mesmer! Justo numa obra clássica. Em A memória e o tempo, Hermínio Miranda escreveu:

“Em salões luxuosos, Mesmer, excêntrico e um tanto exibicionista, circulava paramentado com um ostentoso ascendente do jaleco feito de seda palidamente colorida e uma varinha na mão, como se fosse um mago. Talvez essas atitudes teatrais hajam prejudicado seu conceito médico” (A memória e o tempo. RJ: Lachâtre, 1999. Pg. 75).

Fiquei intrigado com o fato de tão conceituado pesquisador oferecer aos leitores uma visão que desqualificava o criador do Magnetismo Animal. Mesmo que praticamente todos os outros autores fizessem o mesmo. Mas nada disso importava. Não estava com uma resposta pronta para prova-la; tinha apenas uma dúvida, uma pergunta, e fui à busca da resposta.

Na Biblioteca Nacional da França, gigantesco salão oval, dezenas de mesas no centro rodeadas por quatro andares de estantes suntuosas iluminadas pelo teto ornamentado de vidro, numa prateleira antiga, adormeciam as obras originalmente publicadas por Mesmer na língua francesa, em tipos de difícil leitura, típicos de finais do século 18.

Doutor Álvaro Glerean

Doutor Álvaro Glerean, professor da Escola Paulista de Medicina, que estudava o Espiritismo em nosso grupo, chegou a fazer mais de seis revisões do original em suas traduções. Um trabalho primoroso. Depois nos dedicamos aos relatórios acadêmicos contrários à nova ciência, jornais da época, revistas de magnetismo, obras de outros magnetizadores como Marques de Puységur, Barão Du Potet, Deleuze, e muitos outros. A pesquisa ofereceu uma base completa de recuperação dos fatos originais, em fontes primárias que deles abordavam em diferentes perspectivas. Chegamos, enfim, a uma conclusão bem fundamentada: Mesmer jamais foi um charlatão, foi um médico, cientista e pesquisador sério, inovador e extraordinário. Promoveu uma transformadora visão da cura e da saúde, responsável por uma revolução na medicina. Suas obras influenciaram a revolução francesa com suas ideias de igualdade e liberdade, ao ponto de que seus discípulos tornaram-se líderes girondinos do movimento, antes do terror de Robespierre que lhes custou a vida na guilhotina. A psicologia derivada do sonambulismo provocado, fenômeno secundário de seus estudos, transformaram o entendimento do ser humano como alma encarnada, influenciando definitivamente os séculos seguintes, inclusive o surgimento do espiritismo. Mesmer também criou um novo paradigma para a física, com a intenção de dar explicação aos fenômenos de transmissão do pensamento à distância, que constatou em suas experiências com os sonâmbulos, que denominou “sexto sentido”. A transmissão do pensamento precisava de um meio entre o sonambulo e o magnetizador e também sua modulação, para levar informação. Concebeu então a teoria do Fluido cósmico universal, ou origem primeira única de toda a matéria e forças. Um estado sutil desse fluido que forma um pleno no universo, além das vibrações da luz, transmitiria por meio de ondas o pensamento de cada ser. Essa teoria, décadas depois, seria retomada pelos espíritos superiores na elaboração da doutrina espírita, sendo utilizada para explicar a matéria mental do mundo espiritual, a constituição física do perispírito, confirmando a transmissão do pensamento por meio de ondas do fluido universal, proposta originalmente por Mesmer.

Somente no século 20, escritores de uma era materialista, convictos de sua crença na descrença, iriam narrar a vida desse precursor, que não podiam apagar da história, mas era extremamente inconveniente para eles, da forma burlesca que se pode constatar. A história da roupa colorida e da dança exótica foi escrita num folheto difamatório anônimo que contava falsas histórias com o propósito de ridicularizar Mesmer, espalhado pelas ruas de Paris, no auge de sua fama. Depois se descobriu que foi invenção do médico Jean-Jacques Paulet, inimigo declarado das descobertas de Mesmer, autor da obra  L’Antimagnétisme, ou origine, progrès, décadence, renouvellement et réfutation du magnétisme animal (Londres, 1784), (antimagnetismo ou origem, progresso, decaimento, renovação e refutação do magnetismo animal). Foi bem conveniente aos autores desse termo na Enciclopédia Britânica, por exemplo, no lugar de pesquisar as fontes para resgatar quem foi e o que fez Mesmer, reproduzir as descrições difamatórias daquele folheto, encerrando o assunto por tratar-se de um charlatão.

Publicamos, enfim, a obra Mesmer – a ciência negada do magnetismo animal, resgatando sua biografia, contextualizando suas descobertas no cenário cultural de seu tempo, recuperando o caráter espiritualista da história da medicina desde a antiguidade, e oferecendo as obras originais de Mesmer com notas que demonstram a importância de suas teorias para o Espiritismo, a psicologia, a medicina e toda a cultura posterior.

O livro foi lançado em São Paulo, num congresso nacional da Associação médico-espírita do Brasil em 2005. Fui lá, incógnito, para observar a reação dos médicos que porventura se interessassem pela nova obra. Para nossa surpresa, o doutor Sérgio Felipe de Oliveira, ao fazer a palestra de abertura, alterou o programa e passou a falar do livro, que tomou em suas mãos e apresentou em imagem no telão do teatro. Explicou às centenas de profissionais da saúde espíritas que compunham o auditório a importância da recuperação do magnetismo animal e da extraordinária figura de seu criador. Por fim, encerrou sua palestra afirmando:

 “Esta obra deve estar na cabeceira de todo médico, o que se dirá então do médico espírita?”.

Não poderia ser melhor a divulgação. Outros pensadores se manifestaram. O livro se esgotou, exigindo novas edições. Foi adotado inclusive em alguns cursos superiores, debatido e lido por espíritas, médicos, psicólogos, hipnólogos, psiquiatras. Estava em caminho uma merecida e absolutamente necessária recuperação da imagem de Franz Anton Mesmer. Por minha vez, dei continuidade à pesquisa original, que era buscar as raízes da relação íntima entre as ciências irmãs, como anunciado por Allan Kardec. Resultando em novas buscas e o lançamento da segunda obra, Revolução Espírita –  a teoria esquecida de Allan Kardec.

Antes disso, porém, alguns anos depois do lançamento de Mesmer, a ciência negada, tendo viajado por diversos estados do Brasil divulgando-a, ainda não me saía da cabeça aqueles comentários de Hermínio Miranda.

Certo dia, no Rio de Janeiro, finalmente, num primeiro de muitos outros encontros, naquele apartamento de janelas amplas, mobília antiga, permeado de livros, com essa figura simpáti

Hermínio, 2005

ca, magra e longilínea e postura de um cavalheiro inglês, Hermínio Miranda. Sua presença deixava a todos à vontade. Sua conversa rica de referências, fluente, pausada, surpreendente, se transcrita, certamente comporia novas obras. Ele falava como escrevia. Depois de café, tomou com entusiasmo o livro Mesmer em suas mãos, que já havia lido em manuscritos que lhe chegaram às mãos no período de edição dos originais, e afirmou de pronto:

– Esta obra já nasceu um clássico!

Depois de uma conversa longa sobre as novas descobertas, fatos e revelações, tomei a liberdade e lhe disse:

– Não posso deixar de perguntar, Hermínio: porque você fez uma citação tão desabonadora de Mesmer em seu livro A Memória e o tempo? – disparei ansioso.

– Fui traído pelas fontes que compulsei! – respondeu-me de pronto e continuou:

– Tenho o hábito de me servir da coleção da Enciclopédia Britânica, como referência ao consultar assuntos diversos, durante a elaboração de minhas obras. Além disso, alguns livros que já conhecia de memória também definiam Mesmer como um charlatão.

Hermínio foi traído pela falsificação da história que o Magnetismo animal sofreu, como ocorreu também com inúmeras iniciativas racionais do espiritualismo surgidas nos século 18 e 19, que a dogmática visão materialista da academia desde o século 20 condenou ao ridículo e ao ostracismo.

Mas o tempo passou, e certamente Mesmer não saiu da memória daquele escriba espírita. Em 2008, sua pesquisa sobre o pouco conhecido fenômeno da psicometria resultou na obra Memória Cósmica, pela editora Lachâtre, curiosamente fazendo parte da coleção Conspiração do Silêncio, a mesma que foi iniciada por Mesmer, a ciência negada.

Nessa oportunidade, Hermínio vai estudar o livro The soul of things (A alma das coisas), de Willian Denton, raríssimo e desconhecido, que precisou de muitos anos para chegar às suas mãos. Conta que a tomou em suas mãos, usando luvas brancas de algodão, numa biblioteca universitária estadunidense, sem poder, copiá-la. Anos depois, finalmente teve acesso a uma versão digital.

Em determinado trecho do livro estudado, Denton, numa nota, questiona a si mesmo e aos leitores e leitoras: “É necessária a influência mesmérica a fim de induzir o desejado grau de sensitividade no cérebro e nos órgãos que levam as impressões ao cérebro?”. Hermínio estava novamente diante da influência cultural das descobertas de Mesmer, vinte anos depois de seu antigo encontro literário em A Memória e o tempo, e então comentou:

“Pelo que se vê, mesmo em pessoas razoavelmente interessadas na busca de uma visão menos ortodoxa a fenomenologia espiritual, o mesmerismo, embora muito falado, na época, era rejeitado, praticamente desconhecido e tido, na melhor hipótese, como fantasista e charlatanesco.”

Como se vê, Hermínio enfim portava uma visão completamente renovada daquela figura, conhecia suas obras, sua biografia, suas relações fundamentais com a doutrina espírita. E continuou:

“Mesmer, apesar de sua formação médica, foi uma dessas figuras pioneiras e, como sempre, mal compreendido e sumariamente rejeitado principalmente pelos ‘sábios’ da época. E até hoje é considerado por muita gente com desconfiança e reserva. Razão? Suas descobertas pioneiras, com o que chamou de magnetismo animal, punham em cheque acomodadas e obsoletas estruturas de conhecimento tidas por sagradas e intocáveis. E que, infelizmente para o processo evolutivo do ser humano, dominam, ainda, o pensamento contemporâneo, no seu desesperado esforço corporativo de bloquear e ignorar a realidade espiritual”.

Desta vez a pena do velho escriba enfrentava os dogmas materialistas defendendo não só Mesmer, mas o esforço espiritualista no sentido de se estabelecer como hipótese legítima no debate científico contemporâneo, do qual dogmaticamente tem se mantido excluído. E então ponderou, considerando a recuperação de uma teoria revolucionária escrita no final do século 18:

“Se há algo de positivo em seus estudos – e isso não se pode negar –, é necessário levar em conta suas observações e achados e corrigir um ou outro ponto duvidoso. Não, porém, com uma sumária e ignara rejeição do seu trabalho pioneiro”.

Por fim, Hermínio explicou:

“Franz Anton Mesmer (1734-1815), médico austríaco, tem muito a dizer sobre o ser humano. E, justamente pelos desafios que lançou à ciência oficial da sua época, foi e continua sendo um pioneiro incompreendido, quase maldito.

É o preço que têm de pagar aqueles que vieram meter-se num corpo material exatamente para mudar a visão da vida como um todo. E mudar para melhor, claro.

Não dá para prosseguir no discurso sobre o sábio incompreendido. Às leitoras e leitores interessados recomendo, com entusiasmo, o livro Mesmer – a ciência negada, de Paulo Henrique de Figueiredo,  apropriadamente caracterizada como coleção Conspiração do silêncio.

É um livro que coloca as coisas no devido lugar, ao recorrer a textos ignorados por cerca de duzentos anos. Mesmer foi claramente vitimado por uma deliberada conspiração do silêncio.

Infelizmente, reitero, Mesmer ainda hoje é considerado com desconfiança, como se fosse vulgar charlatão ”.

A partir daí, Hermínio dá continuidade em suas explicações dos fenômenos psicométricos, recorrendo às suas próprias experiências na pesquisa do sonambulismo provocado atuando como magnetizador, que permitiram reconhecer profundamente as diferenças entre o fenômeno mediúnico e o sonambúlico. Essa sua obra, Memória Cósmica é uma recomendável e prazerosa leitura.

Atualmente, quando do lançamento da quarta edição de Mesmer – a ciência negada do magnetismo animal, revista e ampliada, deixamos estas lembranças como homenagem ao trabalho incansável de Hermínio Miranda. Quantos escritores, em suas trajetórias de vida, se encontraram diante de uma reviravolta em suas crenças? Inúmeros. Mas quais deles tiveram a coragem de retificar seus enganos em sua própria obra? Contam-se nos dedos. Se antes desse episódio já admirava sua figura, lendo seus livros desde a juventude, observando sua peculiar visão da doutrina espírita, ao descrevê-la viva e luminosamente incluída no cenário cultural contemporâneo, a partir dele serei sempre grato. Certamente vou procura-lo após esta vida, quando retornar ao mundo espiritual onde ele hoje se encontra. Pedirei licença em seus afazeres para ouvir suas histórias acumuladas na vivência no espiritualismo desde os templos do Egito antigo, entre Osíris, Isis e Horus, participando com seus estudos na milenar trajetória cultural da humanidade. Lá, porém, sem os véus espessos da matéria, seu mergulho no tempo e na memória trarão contos fantásticos, descortinando a rica imensidão do universo divino.

E caso Mesmer possa nos brindar com sua presença nesse encontro, será assaz bem vido!

 

1 comentário


  1. Comprei o livro e estou começando a ler. Li apenas 50 páginas e já justificou meu investimento de tempo e dinheiro. Agora preciso terminar a leitura e descobrir se minhas elevadas expectativas estão corretas. Parabéns pela obra!

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