Como participar da regeneração de nosso planeta

Tempo de leitura: 4 minutos

A formação de Rivail, futuramente Allan Kardec, foi no ambiente rural de sua família, em Saint Denis de Bourg, um vilarejo junto à cidade de Bourg-en-Bresse, capital do departamento de Ain. Ali viveu numa bela e grande propriedade, de sua avó Charlotte e sua mãe Jeanne, ambas viúvas. Quando rapaz, sua mãe o levou para a Suíça, no castelo onde Pestalozzi recebia alunos pagantes, e outros cuja família não tinha condições de custear sua educação e estudavam de graça em Yverdon.

O método de Pestalozzi, inspirado nas ideias de Rousseau, valorizava a autonomia dos jovens, que compreendiam as coisas pelo esforço nascido da curiosidade ao lidar diretamente com os objetos de seus estudos, fossem os rios, as montanhas, as plantas, insetos, animais, o clima, os hábitos, os fenômenos físicos, químicos e tudo mais.

No ambiente artificial das grandes cidades, com seus prédios, calçadas, ruas tomadas de charretes e carruagens, metidos em seus quartos escuros e úmidos, as crianças do século 19, fechados nas salas de aula, longe da natureza, recebiam uma formação que poderíamos chamar de adestramento. Um professor ditando as frases, com sua palmatória na mão, pronto a repreender qualquer iniciativa, demonstração de emoção ou questionamento de suas palavras. O dever maior era a obediência, o decorar, a submissão. Era o que esperam obter os professores, durante séculos orientados pelos religiosos, como os jesuítas.

Na sua cidade natal, porém, Rivail podia correr os campos de trigo, pular os córregos que moviam as pás dos moinhos, convivia com a riqueza de pássaros, pequenos animais, da florida Bourg. Aprendia ao cavoucar a terra, colecionar pedras, observar as borboletas, acompanhar os pássaros em seu dia a dia.

Tempos depois, agora professor e diretor de escola em Paris, Rivail, ao lembrar-se desses velhos tempos, relata:

“Vede as crianças a quem foram dadas desde cedo ideias sobre história, história natural, física, química: estátuas, quadros, plantas, animais, os fenômenos de que são testemunha, uma simples pedra, tudo lhes interessa. Sua atenção está desperta e, por suas perguntas, provam o quanto se pode tirar partido de sua inteligência, quando se sabe lidar com ela convenientemente”

(RIVAIL, H. L. D. Discurso pronunciado na Distribuição de prêmios de 14 de agosto de 1834)

Pestalozzi recebia os jovens que tinham liberdade de aprender com entusiasmo e iniciativa, ao produzir conhecimento com o uso da razão, vivenciando esse processo de forma alegre, participativa, independente.

Essa formação de Rivail foi fundamental para que ele compreendesse tanto o método quanto a teoria dos espíritos superiores quando da elaboração da doutrina espírita.

Os espíritos não fizeram o trabalho dos homens. Incitavam a manifestação de espíritos que despertavam a curiosidade e o interesse sobre os fenômenos espirituais. Kardec e os demais pesquisadores debatiam, questionavam, investigavam os fatos. Surgiam hipóteses, diversas, ouviam as opiniões diversas. Somente quando estavam preparados para compreender as razões e explicações dos espíritos superiores, só então, é que eles transmitiam seus ensinamentos por meio do diálogo. Desse modo, o método de elaboração da doutrina espírita respeitava e promovia a autonomia intelectual.

Por outro lado, os espíritos revelaram que a lei que rege as relações sociais dos espíritos no mundo espiritual está baseada na liberdade, e, tendo presente na consciência a lei de Deus, todos nós devemos desenvolver nossa moral de forma autônoma. Seguimos as leis que compreendemos, na medida de nossa evolução, adquirindo progressivamente o livre-arbítrio.

Esses novos ensinamentos da doutrina espírita superam os milenares dogmas de que Deus age castigando e recompensando as almas, para submetê-las a regras que ninguém compreende a razão. Essa visão heterônoma de Deus é falsa, criada pelos homens para submeter às multidões aos seus interesses mesquinhos de poder e privilégios.

Como demonstramos em Revolução Espírita, a teoria esquecida de Allan Kardec, a autonomia moral é o ponto de virada do velho para o novo mundo. A autonomia intelecto-moral deve ser a base de conduta das relações sociais na família, na escola, no trabalho, no governo, na assistência social. Essa é a teoria esquecida. Sua retomada colocará o espiritismo como vanguarda da transformação moral da humanidade, revolução nas ideias e em todas as coisas, representando a regeneração da humanidade pela liberdade!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *