Primeiro livro espírita brasileiro, em 1865, denuncia a corrupção dos políticos: “darei a quem mais me der! ” Atualíssimo

Tempo de leitura: 10 minutos

Por Paulo Henrique de Figueiredo

Manuel de Araújo Porto-Alegre

Um brasileiro como poucos amaram sua terra, Manuel José de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), deve e merece ser reconhecido como expoente e pioneiro da história do Espiritismo no Brasil. Talentoso, lúcido, com uma capacidade fabulosa de compreender nosso povo, nossos problemas e enxergar soluções. Para ele, depois de estudar profundamente, experimentar a mediunidade, dialogar com Allan Kardec e diversos espíritos, chegou à conclusão de que a Doutrina Espírita se encaixa perfeitamente para a formação de nossa identidade nacional. Durante o reinado de Dom Pedro II, saindo das amarras da colonização portuguesa, o Brasil buscava caminhar por suas próprias pernas, identificar as melhores características de seu caráter como nação. Porto-Alegre estava entre os que se dedicaram à essa missão. De família simples, alcançou, por seu talento, importantes postos no governo, como arquiteto, pintor, poeta, historiador e diplomata. Carreira brilhante, contribuição inestimável.

Em 1865, porém, vivendo em Dresden, Alemanha, depois de um longo trabalho de estudos e pesquisa sobre o Espiritismo, trocando correspondências com Allan Kardec, percebeu o grande valor dessa revolução para dar uma base sólida ao nosso tão jovem país. Escreveu, então, para o povo brasileiro, a obra Revelações — cartas sobre o Espiritismo, enviada ao Brasil em doze páginas manuscritas, aos cuidados de seu amigo Joaquim Manuel de Macedo, professor dos filhos da princesa Isabel. No entanto, não sabemos o motivo, tal obra permaneceu inédita, mantida no acervo de seus escritos no acervo do Arquivo Nacional do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. A primeira e extraordinária obra espírita brasileira ficou por 150 anos longe de seu público.

Duas coisas chamam a atenção quando nos dedicamos à sua leitura: o fato de não ser dedicada aos “sábios e felizes na Terra”, mas “ao povo e para os infelizes, para os que precisam de luz e consolação nesta vida”. A segunda coisa está na fidelidade à metodologia científica, ao caráter fundamental e aos princípios adotados por Allan Kardec na elaboração da Doutrina Espírita. Lembramos que Porto-Alegre pesquisou e escreveu enquanto o Espiritismo estava em plena elaboração na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

Toda a obra trata de mediunidade, fundamentos do Espiritismo, educação e reforma social como meios de evolução humana. Mas também lida com os problemas políticos brasileiros, com coerência e profunda lucidez. Disso somente trataremos neste artigo, lembrando que o texto merece inúmeros exames e desenvolvimentos pelos espíritas.

Porto-Alegre, em seu livro Revelações, que reproduzimos na íntegra e com notas explicativas à partir da página 600 da obra Revolução Espírita — a teoria esquecida de Allan Kardec, toca nos problemas sociais e políticos brasileiros, e é atualíssima quando denuncia a corrupção, o conformismo do povo e a falta de compromisso dos dirigentes com as reais necessidades do país. Em busca de uma solução, o autor considera a educação intelecto-moral e a confiança na vida futura como fundamentais para tornar o Brasil uma nação autônoma e bem-aventurada. E não poupou palavras para denunciar os abusos da classe dirigente e alertar o povo de que estava sendo enganado! Vejamos:

“Todos os males do Brasil provêm da ambição dos seus guias, do egoísmo da maioria dos homens políticos, e da indolência e credulidade do povo, que é como todos os povos enganados. Raríssimos têm sido os deputados que sacrificaram a sua votação futura à verdade”.

Segundo Porto-Alegre, duas condições estão presentes para o estado de coisas denunciado por ele em 1865 e que ainda hoje é a grande causa do atraso, precárias condições e desvios bilionários: a ambição dos políticos e a indolência e credulidade do povo! Importante lucidez. A corrupção precisa de quem explore e de quem deixa se explorar, essa é a formula real de nossas misérias. Veja como ele analisa o estado das coisas, a forma de pensar que leva ao ambiente corrompido que fornece contingente para as fileiras de vereadores, deputados, senadores envolvidos em tramas, escândalos, encobertos por mentiras e ambições sem limites:

“Os sofismas da ambição e da avareza têm arruinado a boa índole do povo brasileiro, e infundido no seu ânimo ideias e práticas errôneas. Esse desgosto, e essas lamentações diárias de tanta gente, não são mais do que a prova da luta da razão contra a imortalidade. Ninguém está contente, todos se acusam, e todos se dizem inocentes! Onde estão os culpados? Todos falam do mau fado que persegue as nossas coisas, todos veem as suas obras, e ninguém se anima a combatê-lo! O que quer dizer isto? É que cada qual deseja mais do que merece, porque quem muito deseja é infeliz. É que cada um não cumpre com os seus deveres, e não quer esperar pela hora que lhe compete e pela ocasião oportuna. É que os obreiros da nossa civilização exemplificam o egoísmo, saúdam a prosperidade, corroem a audácia, toleram o egoísmo, e menosprezam todas as virtudes que não temem, ou que lhes não servem”.

Palavras bem escolhidas de um poeta: “Todos se acusam e todos se dizem inocentes! Onde estão os culpados? ”. Não é a definição perfeita de nossos dias? De um lado, abundam na imprensa as denúncias de roubos cujo valores surpreendem o mundo, de outro uma classe política e empresarial onde todos se dizem inocentes, indignados pelas acusações infames, honrados que são desde o berço, junto à mamãe.

Porto-Alegre não faz rodeios, vai direto à questão fundamental do problema:

“O povo queixa-se do governo que ele próprio elege, e não cura de puni-lo na ocasião própria, exprobrando-o, e deixando de reelegê-lo”.

Não me cansarei de lembrar — trata-se de uma obra de 1865! Quantas gerações de políticos se passaram? Quantos se perpetuaram por reeleições sucessivas até a morte. Quantos filhos, netos, bisnetos, tataranetos continuaram essa saga da infâmia? Sempre tendo o apoio de nosso povo, como diz Porto-Alegre, enganado, indolente e crédulo.

Hoje são os magistrados, procuradores os vilões eleitos pelos políticos. Repetem a ladainha: trata-se de perseguição política, estão me acusando injustamente, abusam de seus poderes, somos inocentes defensores da causa pública! Como se o noticiário dos desvios fossem miragem. Incrível, mas Porto-Alegre toca no assunto:

“Os demandistas queixam-se dos magistrados, e não confessam a pressão que sobre eles exercem com empenho, e até com ameaças; nenhum revela a injustiça que requereu e exigiu, e todos os acusam de iniquidades e corrupção, sem se lembrarem de que são eles os corruptores! Pobres magistrados, que devem ser anjos no meio de tantos demônios”.

Direto ao assunto, Porto-Alegre afirma sem meias palavras:

“Todos os males do Brasil provêm da ambição dos seus guias, do egoísmo da maioria dos homens políticos, e da indolência e credulidade do povo, que é como todos os povos enganados. Raríssimos têm sido os deputados que sacrificaram a sua votação futura à verdade”.

Vale a pena ler os demais argumentos, as análises cortantes, as denúncias permanentes. Porto-Alegre, aos sessenta anos, que representam mais pela época mais rude vivida, abre sua mente e revela um povo brasileiro e sua classe política que permanece nas mesmas condições. Todavia, quando a ferida está exposta para todos, estamos mais próximo da cura, pois nada se esconde, e não adianta tapar e dar de ombros. Quando as evidências não encontram um tapete grande suficiente para esconder a sujeira, nada resta senão recolher com a pá e levar ao lixo, rendendo-se à faxina. Estamos mais perto disso do que nunca. 150 anos depois.

Porto-Alegre não se furta a dar uma solução, e vem daqui sua genialidade. Como resolver esse estado precário? Pela educação, afirma o sábio ancião. A mais completa reforma na educação de nosso povo, tirando-o da indolência que nunca desejou permanecer, afastando a ingenuidade que permite sua manipulação, que desperte sua vontade livre, agindo por seus próprios pés, escolhendo os caminhos, compartilhando os recursos públicos de forma a espalhar o bem-estar para todos, destruindo os privilégios. Só a educação pode alcançar esse resultado.

Leve em conta as particularidades da época, e acompanhe o raciocínio lúcido de Porto-Alegre ao anunciar os benefícios do Espiritismo para o Brasil que mal saía das fraldas:

Não temos cuidado em plantar convenientemente. A educação moral e física, que prepara o homem bom e saudável, está por fazer-se em relação à índole e ao clima. A da mulher, que é a melhor criatura do Brasil, vai-se estragando em alguns armarinhos literários, chamados colégios, onde nada se aprende para dar à sociedade filhas modestas e obedientes, esposas fieis e laboriosas, e mães amorosas e delicadas. O menino, que há de ser cidadão e cooperar para a grandeza do seu país, gasta o tempo e a memória com coisas inúteis à posição que o espera, deixando de parte os três catecismos essenciais a todo o homem: o da Religião Cristã, o da Civilidade, e o da Constituição do Império, que o devem melhorar para com Deus, os homens, e a pátria. Onde está a nossa educação física? Numa ginástica imperfeita ou no manejo das armas? Passemos adiante, porque a não encontramos. Se eu fosse Ministro havia de cuidar muito seriamente. Uma nação bem-educada física e moralmente, faz em dez anos o que outra faz em um século, porque tem um bom corpo e uma boa alma, a força e a inteligência, que é tudo. Em outra ocasião falarei mais de espaço sobre esta matéria”.

Todos os políticos corruptos, todos os empresários corruptores que viveram pilhando durante os últimos dois séculos o nosso país foram meninos e meninas. Não existe educação moral, nem se cogita disso. Não falo da educação moral do catecismo, que deseduca e coloca justamente o jovem na condição de indolência! Falo da educação moral autônoma que define o ato do dever como ação voluntária, consciente e racional. Dever que promove a igualdade, liberdade e fraternidade. Dever que elege a cooperação e solidariedade fundamentais para as relações sociais. Dever que tira o indivíduo da indolência, criando tal exigência que nenhum corrupto se reelegerá, nenhum empresário se atreverá a conspirar, e a fortuna dos cofres públicos terá endereço certo para sua aplicação, nas escolas, creches, centros comunitários, saúde, arte, e demais interesses do povo. Esse tempo chegará, e aí de você, que lutou para adiar esse dia. Como disse Chico Buarque:

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.

Você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia.

Como vai se explicar, vendo o céu clarear, de repente, impunemente.

Como vai abafar, nosso coro a cantar, na sua frente!”

1 comentário


  1. Ler este artigo de Paulo Henrique de Figueiredo é uma experiência que eu aconselharia não só aos espíritas, seja qual for a classificação que a si mesmos atribuem no grau de qualidade do seu conhecimento e da sua prática da grande cultura que ensina a viver, e que dá da vida a imagem empolgante de uma aventura libertadora, que nos conduz mais adiante e mais acima na escala do progresso pessoal e coletivo, material e espiritualmente falando.
    O meu conselho seria, outrossim, de que o lessem todos os cidadãos de boa fé e de boa vontade, que não há poucos felizmente, havendo alguns porém muito cansados, outros desiludidos e outros, lamentavelmente, que se demitem dessa boa fé e dessa boa vontade que tanta falta faz por todo o lado a toda a gente.
    Também aconselharia que o lessem não apenas uma, mas tantas vezes quantas as que fossem necessárias para interiorizar completamente tudo que nos diz a mensagem que Paulo Henrique, trazendo-nos notícia da magnífica atitude cultural, humanista e espiritual de Manuel de Araújo Porto-Alegre, um contemporâneo de Hipólito Leão Denisard Rivail e que tão bem assimilou os ensinamentos de Allan Kardec, precioso organizador do ensino dos Espíritos superiores.

    O trabalho que tenho feito na tentativa de assimilar de forma útil esses ensinamentos tem sido preciosíssimo para mim, em primeiro lugar, porque a evolução dos Espíritos é individual, feita passo a passo e muito lentamente.
    Todos os que estão nessa condição de esperançados e confiantes estudiosos do ensinamento dos Espíritos não podem, entretanto, esquecer-se de que devem pensar a sério na sociedade em que desenvolvem a sua vida e na qual vivem seus filhos, seus familiares e seus amigos. Na sociedade em que vivem, ao fim ao resto, todos os cidadãos seus semelhantes, compatriotas ou não.

    O espiritismo, como atividade organizada, e não tem sido esse o meu espiritismo, fecha muito frequentemente os olhos a essa realidade e a esses horizontes, longe dos ideais de defesa dos valores sociais e coletivos, enjeitando-os como menores, na sua dimensão de preocupações terrenas, entregues ao automatismo de mal compreendidas leis morais, como a da Liberdade e do Progresso, já para não falar em todas as outras.

    Com esta mensagem de Paulo Henrique de Figueiredo, cuja obra estou a tentar estudar com a máxima seriedade e o máximo interesse, o espiritismo acorda e põe-se de pé.

    Com as palavras de Manuel de Araújo Porto-Alegre, servidas pela coragem lúcida e a bravura do cidadão Paulo Henrique, somos todos convocados para despertar de uma vez por todas do sono demasiado longo e dos retraimentos redutores de visões tímidas da igreja confidencial e dogmática, retrógrada e sombria, que tanto atrapalha a nossa memória coletiva e que tão frequentemente se instala entre nós.

    A proposta que nos traz Paulo Henrique é o raio de Sol de uma madrugada fresca e estimulante para uma nova visão de uma cultura que, sem ser antiga, se tem revelado incapaz de sair do reduto frágil da fórmula temerosa, para não dizer cobarde, de não enfrentar olhos nos olhos o Homem como Homem, e Deus como Deus, pai de infinita misericórdia que nos vincula essencialmente à VERDADE e nos obriga por dever fraterno à defesa da JUSTIÇA.

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