Para Kardec, o Espiritismo é mais prejudicado pelos adeptos que o compreendem mal do que pelos seus inimigos declarados!

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Em 1864, Allan Kardec fez um discurso aos espíritas de Bruxelas, na Bélgica, país vizinho da França. Foi muito bem recebido por adeptos sérios, interessados na doutrina, conhecedores dos aspectos filosóficos e morais da Doutrina, felizes e motivados em receber aquele mestre que dedicava sua vida integralmente ao seu desenvolvimento e divulgação. Kardec iria conservar dessa visita uma de suas mais agradáveis lembranças.

Essas viagens, porém, ele declara, não tinham como motivo a simples satisfação pessoal, não, além de estreitar os laços de fraternidade entre os espíritas, recolhia fatos e documentos sobre o movimento do pensamento espírita, o trabalho dos defensores e os meios de combate dos adversários. Entre esses últimos, invariavelmente, encontravam-se os incrédulos e os fanáticos, os polos opostos da crença racional.

Os defensores da doutrina lutavam como coragem, perseverança, dedicação, desinteresse, buscando a vitória da Doutrina espírita e não de seus interesses pessoais. Agindo conforme a proposta moral espírita, ou seja, sendo um homem de bem. Formam a base dos pioneiros, os preparadores do terreno, que cumprem seu dever com fé esclarecida, devotados, em reconhecimento aos consolos e alegrias que receberam dos ensinamentos dos Espíritos.

Infelizmente, porem, existem aqueles que não sabiam acompanhar a marcha natural do Espiritismo. Os impacientes, sem aguardar a evolução dos ensinos, vão buscar em outros cantos ideias prematuras, conceitos inadequados, pensamentos que não pertencem à doutrina fornecendo “armas aos nossos adversários”, explica Kardec. Há também aqueles que, conhecendo o Espiritismo apenas superficialmente, sem serem tocados no coração “dão, por seu exemplo, uma falsa opinião de seus resultados e de suas tendências morais”, afirma o professor.

Dessa maneira, conclui Kardec:

“Aí está, sem contradita, o maior escolho que encontram os sinceros propagadores da Doutrina, porque, frequentemente, veem a obra que penosamente esboçaram, desfeita por aqueles mesmos que deveriam secundá-los. É um fato constatado que o Espiritismo é mais entravado por aqueles que o compreendem mal do que por aqueles que não o compreendem de todo, e mesmo por seus inimigos declarados; e há a anotar-se que aqueles que o compreendem mal, geralmente, têm a pretensão de compreendê-lo melhor do que os outros; não é raro ver noviços pretenderem, ao cabo de alguns meses, ser superiores àqueles que tiveram para eles a experiência adquirida por estudos sérios. Essa pretensão, que trai o orgulho, é ela mesma uma prova da ignorância dos verdadeiros princípios da Doutrina” (Revista Espírita de 1864, página 210).

Para resolver essa questão levantada por Kardec, para prevenir o Espiritismo das consequências da ignorância e das falsas interpretações, dos sistemas equivocados que se tomam em seu nome, é preciso:

“Se prender a vulgarizar as ideias justas, a formar adeptos esclarecidos, cujo número neutralizará a influência das ideias errôneas”.

Bem compreendendo esse conselho, para livrar da divulgação espírita os falsos ensinamentos, as ideais equivocadas infiltradas, não adianta combater pessoas, como numa caça às bruxas. Muitos que divulgam os equívocos, os fazem inocentemente, por falta de estudo, por não conhecer verdadeiramente os conceitos fundamentais presentes nas obras de Kardec. A forma de se combater a falsa compreensão é o esclarecimento. Essa é a tarefa dos espíritas verdadeiramente desinteressados, dedicados à causa da Doutrina Espírita. Dando instruções, promovendo grupos de estudo, propondo o debate, a discussão das ideias. Não há ninguém que se possa proclamar professor de Espiritismo, somos todos estudantes!

O Espiritismo exige muito estudo, pesquisa, interpretação dos artigos, recuperando, com os recursos da história e filosofia das ciências, as ideias originais dos espíritos superiores que estabeleceram a teoria espírita. Essa é a tarefa. Mãos à obra!

(Veja mais detalhes em Revolução Espírita, por Paulo Henrique de Figueiredo)

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