Os Exilados (3): preconceito ou ciência?

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No post anterior desta série “Os exilados”, tratamos do que foi “A chegada dos espíritos de outro planeta”, uma narrativa baseada na teoria das emigrações e imigrações dos espíritos, entre a população encarnada de um mundo para outro, na imensidão do universo. Trata-se de um ensino dos espíritos presente na doutrina espírita, por Allan Kardec:

“De acordo com o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por essa razão mesma, chamada raça adâmica. Quando ela aqui chegou, a Terra já estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quando aí chegaram os europeus” (KARDEC, Allan. A Gênese).

Neste trecho de seu livro, Kardec faz uso do ensino dos espíritos para interpretar o surgimento das primeiras civilizações, além disso, busca uma explicação para compreender as diferenças entre os povos europeus e os considerados selvagens que habitavam a África, os índios das Américas, além dos povos orientais considerados atrasados.

Atualmente, esse assunto faz lembrar os conflitos étnicos, a indisposição dos países mais ricos com os imigrantes clandestinos, o desconforto do ocidente com o radicalismo de religiosos do oriente. Está nas manchetes dos jornais.

É preciso cuidado ao interpretar os textos das obras de Kardec que tratam desse tema, para não cair em extremos, a aceitação dogmática de uma interpretação literal, ou a recusa do tema considerando-o ultrapassado.

Realmente, o uso da ideia de “raça” está relacionado com a cultura da

Carl von Linné
Carl von Linné

época, o século 19, quando o livro foi publicado. Para a comunidade científica desse tempo, a espécie humana estaria dividida em raças distintas. Os grupos fundamentais eram classificados, como o fez Lineu (Carl Von Linné, 1707-1778), em sua obra Systema Naturae, dividindo o homo sapiens em quatros raças: americano, asiático, europeu e africano. Isso qualifica uma parte do raciocínio utilizado por Kardec. Há outro detalhe importante. O tema dos exilados está relacionado à tradição judaico-cristã na qual os espíritas franceses estavam inseridos, por isso a referência a Adão. Então temos duas tradições culturais, o paradigma científico temporal, e a influencia da cultura religiosa, os dois lidando com o surgimento do homem e da civilização. Tudo isso precisando ser comparado com o que os espíritos estavam ensinando! Bastante complexo, não?

Não é tão fácil desenrolar esse novelo. Isso se deve ao fato de que o surgimento do Espiritismo como doutrina, a partir do diálogo entre os espíritos superiores e a comunidade de pesquisadores espíritas, foi um fenômeno localizado no espaço e no tempo. Não se trata de uma revelação profética, que poderia ser interpretada de forma teológica. Esse diálogo ocorreu tendo por base a cultura da época. Para ensinar os homens, os espíritos partiram do que lhes era conhecido, para explicar o desconhecido. Tomando como base a cultura da época, a teoria dos espíritos pôde ser raciocinada pelos homens, compreendida, assimilada, e por fim escrita pela síntese elaborada por Allan Kardec. Esse foi o cenário do surgimento do Espiritismo.

Esse método de ensino dos espíritos para a elaboração da doutrina espírita teve a vantagem fundamental de que ela não foi ditada simplesmente, mas estabelecida pelo princípio do livre pensamento, da fé raciocinada. Os ensinos foram aceitos pela sua lógica, pela sua forte argumentação, pela ligação coerente entre seus conceitos básicos, estabelecendo, passo a passo um núcleo forte da doutrina espírita. Por outro lado, há a importante questão dos textos conterem uma referência ao que era aceito na sociedade europeia do século 19, carregando em suas letras os acertos e também os equívocos dos paradigmas científicos aceitos naquele momento histórico. Por isso, a ressalva consciente de Kardec, quando disse que, na medida em que a ciência avançasse, o Espiritismo acompanharia essa evolução. A doutrina espírita é progressiva. No entanto, para que isso ocorra, a cada passo da cultura humana, o diálogo com os espíritos deve ser renovado. Adotando-se, isso é importante, os métodos fundamentais da ciência espírita, como a universalidade do ensino dos espíritos por meio da diversidade de médiuns e grupos de pesquisa. Tratamos desse assunto com pormenores em Revolução Espírita – a teoria esquecida de Kardec, leitura que sugerimos.

Mas como a teoria espírita deixou de ser desenvolvida depois que o professor Rivail se foi, a doutrina espírita ficou temporal, e precisamos dos recursos da filosofia e história das ciências para que a sua leitura não se torne anacrônica. Sendo que anacronismo é um erro quando se analisa uma época com a cultura, costumes, ideias de outra. As obras de Kardec precisam ser lidas em seu contexto original, para que se possa compreende-la adequadamente hoje!

Voltando ao tema do exílio, resta-nos aqui uma complexa associação de mitos e teorias, surgidos em momentos diferentes da história do mundo, o que torna a interpretação disso tudo um tanto difícil. Mistura-se o mito de Adão descrito na bíblia, interpretado pelo diálogo dos espíritas que pensavam a partir da teoria das raças no século 19, tudo isso esclarecido pelos ensinamentos dos espíritos superiores (cujo conhecimento era muito mais amplo do que o dos homens daquela época). Tudo isso sendo lido por nós, no início do terceiro milênio, mergulhados na cultura atual. Ufa!

No trecho seguinte de A Gênese, Kardec faz referência à narrativa mítica da Gênese bíblica, mas adota o discurso interpretativo da ciência de sua época, pela relação entre as então imaginadas “raças”, no início da civilização. Ele usou o conceito então aceito de raças evoluídas frente ás raças primitivas, uma característica do que se conhece por eurocentrismo, uma visão de mundo que tendia a colocar o interesse e a cultura europeia como a mais importante e avançada do mundo:

“Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras. A Gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância espiritual, o que não se dá com as raças primitivas, mas concorda com a opinião de que ela se compunha de Espíritos que já tinham progredido bastante. Tudo prova que a raça adâmica não é antiga na Terra e nada se opõe a que seja considerada como habitando este globo desde apenas alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, antes tenderia a confirmá-las” (A Gênese).

Segundo a classificação de Lineu, por exemplo, a raça africana tinha características selvagens e incultas, aproximando-se do que se definia como sendo raça primitiva, e a raça europeia tinha a seguinte descrição que a assemelhava à raça adâmica, afirmava Lineu: “branco, sanguíneo, musculoso, engenhoso, inventivo, governado pelas leis”. Estava-se associando cor da pele com características psicológicas, sociais e culturais. Essa teoria das raças, no decorrer dos séculos 19 e 20, deu origem aos preconceitos e doutrinas funestas, como eugenia e nazismo.

Ciência da época
Página da obra de Nott and Gliddon’s ‘Types of mankind’ representando a “evolução” do macaco ao grego clássico, sendo o negro um tipo intermediário

Não existem raças, hoje isso é claro. Mas a construção desse entendimento contemporâneo foi progressivo, desde o passado escravocrata até nossos dias. E mesmo assim ainda não é unanimidade, persiste ainda o comportamento racista carecedor de educação. Há até uma ebulição xenófoba presente e crescente no noticiário internacional. Mas a humanidade surgiu realmente numa complexidade étnica ainda pouco compreendida. Os recursos da arqueologia, os estudos dos fósseis e sítios, as interpretações dos textos primeiros da civilização, disponíveis para a ciência, ganham diferentes interpretações em diferentes paradigmas da comunidade científica, muitas vezes divergentes e incompatíveis.

O que, afinal, representa o mito de Adão?

A interpretação do mito da queda de adão tradicionalmente tem dois caminhos culturais diferentes. Um deles é a utilização pelos grupos religiosos do texto bíblico. Os sacerdotes dão uma explicação literal, considerando a história de Adão como uma narrativa literal de fatos ocorridos longe do alcance da percepção do homem, nas origens do mundo. A queda de Adão e Eva foi, no entendimento religioso, um evento ou acidente ocorrido num determinado lugar e época do passado. Um fato da pré-história da humanidade.

Por outro caminho, diversos filósofos e pesquisadores da ciência, nos últimos séculos, interpretam o mito da queda representando-o em suas teorias pelos conceitos de “pulsão ideológica”, “arquétipo coletivo”, uma aplicação universal do “inconsciente coletivo”, entre outras interpretações científicas dessa narrativa.

E aqui é que desejamos chamar sua atenção para a importante contribuição que a doutrina espírita tem a oferecer, a partir dos seus conceitos fundamentais – considerados de forma independente das questões temporais presentes no texto de Kardec. O Espiritismo tem respostas objetivas para esclarecer tanto o pensamento religioso quanto o científico! E, tendo sucesso nesses dois desafios, permite então uma ponte, um encontro, para que ocorra futuramente um diálogo, por mais difícil que pareça, entre esses dois campos do conhecimento: ciência e religião. Vejamos.

Segundo a teoria dos espíritos, o mito de Adão, como todos os outros mitos da queda, não são falsos. Eles fazem referência a um fato histórico, porém, interpretado de forma simbólica. A queda na origem da humanidade representa uma lembrança intuitiva dos espíritos que foram exilados de outro planeta, onde viviam uma condição melhor do que a encontrada em nosso mundo primitivo. Eles saíram de lá em virtude da insistência em manter privilégios e poder, derivados do egoísmo e orgulho presentes em suas personalidades.  Quando aqui chegaram, contribuindo para o surgimento da civilização, viviam todavia uma  angústia de estar vivendo num mundo sem recursos, sem conforto, junto a uma população nativa simples e ignorante. O contato desse pequeno grupo, as lembranças intuitivas do planeta melhor que deixaram, formaram as imagens arquetípicas do paraíso, da queda, do homem culpado pelo erro, que busca reconciliar-se com a divindade para merecer um retorno ao mundo feliz. Todos esses sentimentos e conflitos estão presentes na narrativa de Adão e Eva.

O equivoco da interpretação literal desse mito está precisamente em generalizar para toda a humanidade, como uma narrativa de origem coletiva, uma vivencia pessoal de um grupo de espíritos, em decorrência de suas próprias escolhas. Em verdade, apenas um pequeno grupo de espíritos vivenciaram esses fatos do exílio, enquanto a grande maioria da humanidade estava habitando em nosso mundo primitivo suas primeiras encarnações humanas. Em suas primeiras experiências, num processo de aprendizado natural e progressivo, estavam livre dos pesados sentimentos de culpa dos exilados.

No entanto, pela imposição da cultura religiosa, – utilizada como meio de dominação e submissão das massas –, o medo, a culpa pelo pecado, o medo do mundo novo, o rancor de se achar punido, todas essas dores que representam uma verdadeira expiação dos espíritos exilados foram transferidos, pela catequese dos mitos religiosos, para toda a população de nosso planeta, sendo transmitido, geração após geração, transformando-se em cultura e vivência psicológica e social.

Ainda hoje a angústia da queda está presente na experiência psicológica de muitas pessoas, devido à sua trajetória espiritual, mas, é importante frisar, essa condição é absolutamente pessoal, e não pode ser generalizada. Um filósofo, um psiquiatra, um psicólogo que, por meio da introspecção investigue os seus próprios sentimentos, pode, com uma observação sincera e atenta, encontrar em si mesmo essa culpa primordial, mas ela é só sua, fruto de suas escolhas no decorrer de suas vidas.

Partindo desse segundo ponto de vista psicológico, os exilados vivenciam um processo evolutivo intelecto-moral que é natural dos espíritos, como explica o Espiritismo. Todos evoluem a partir de suas escolhas, conforme se elabora paulatinamente o livre-arbítrio, vida após vida. O que aqui queremos destacar é o fato de que esses fenômenos migratórios, esses relatos históricos originais de nossa civilização podem ser objetos de estudos sociais, antropológicos, arqueológicos, sociológicos. Servem para a interpretação coletiva de nossa humanidade. Mas não tratam da origem do mal que pudesse explicar a natureza humana, não definem a origem da imperfeição de cada um. Segundo o ensinamento dos espíritos, todos evoluem desde a condição de simples e ignorante, e as escolhas morais autônomas individuais formam uma trajetória que representa  a causa da condição intelecto-moral de cada indivíduo. A questão da evolução moral é um fenômeno psicológico, devendo ser interpretado individualmente e não de forma coletiva e geral.

Um exemplo deixará esse raciocínio mais claro. A capacidade de nosso cérebro e o comportamento instintivo que temos, como ter medo e as reações fisiológicas e comportamentais dessa emoção, são estabelecidas pela fisiologia humana e podem ser estudados pelos neurocientistas, psicólogos, psiquiatras. A origem desses fenômenos é orgânica, tendo se desenvolvido pela evolução de nossa espécie, o homo sapiens. Já as diferenças morais e intelectuais de cada um, de acordo com o Espiritismo, não têm origem orgânica e genética. Essa condição é individual, e depende do rumo estabelecido desde as primeiras vidas humanas, as escolhas, e a história pessoal estabelecida. Trata-se de um fenômeno psicológico e existencial.

O homem é um ser complexo, tendo inclusive uma dupla natureza. Ele é espírito, e vivendo na condição encarnada, faz uso de um corpo animal, elaborando em cada vida uma personalidade nova. A uma trajetória espiritual construída por cada um e que define sua condição espiritual. E em cada vida construímos uma experiência nova, uma página, um instante apenas, que, progressivamente, constrói o voluntário entendimento das leis universais presentes em nossa consciência, o que nos tornará futuramente bons, sábios e felizes. “O homem é um espírito encarnado” constituído de individualidade espiritual e uma personalidade em cada nova vida, esse é o princípio da psicologia espírita.

O Espiritismo tem muito a contribuir tanto para o campo cultural da religião quanto para o da ciência. Mas a interpretação do ensinamento dos espíritos precisa ser feita com muito cuidado aos detalhes, para não cair em interpretações falsas, e, corre-se o risco, caso persistiam equívocos, dar início a novos mitos que se distanciam do significado original!

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