Kardec fez uso da fé racional proposta pelo filósofo Kant? Será?

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Kardec fez uso da fé racional proposta pelo filósofo Kant? Será?
Kardec ponderou que “a fé cega não tem mais curso em nosso século racional”. A tentativa de restabelecer a antiga ordem ficou impossível. Mesmo a abstração pede raciocínio, não basta dizer que uma coisa é boa ou má e proibi-la, segundo Kardec:

“Pede-se mais que ter a fé, se a deseja, dela se tem sede hoje, porque é uma necessidade; mas se quer uma fé raciocinada. Discutir sua crença é uma necessidade da época, à qual é preciso, de bom grado ou malgrado, se resignar” (RE63, p.196).

Kardec está fazendo uso de um conceito proposto por Kant, ao estudar o uso da razão para compreender as coisas que são objetos da experiência, como a existência de Deus.
Para Kant, a fé racional pode se chamar um ‘postulado’ da razão, por estar em igualdade com qualquer outra fonte de saber:

“Não como se fosse um discernimento que satisfaria todas as exigências lógicas em relação à certeza, mas porque semelhante assentimento (pois, no homem, tudo se julga bem apenas no aspecto moral) não é inferior em grau a nenhum saber, embora seja totalmente distinto do saber quanto à natureza” (KANT, Crítica da razão prática).

Apesar de a existência de Deus ser abstrata, por ser uma ideia pura da razão, a fé racional garante a quem a conquista um grau equivalente ao conhecimento quanto à certeza dessa existência.
É exatamente o postulado da fé racional que demonstra o equívoco de Hume, ao definir a religiosidade humana como fundamentada no terror e na moral nas paixões, considerando que a fé, por sua definição, não passa de superstição. Para Kant, só haverá superstição onde a fé não for racional, pois “mesmo a de natureza histórica, deve ser racional, pois a verdadeira pedra de toque da verdade é sempre a razão”.
Com a fé raciocinada, continua Kant, temos um meio seguro para percorrer o campo dos objetos suprassensíveis, tornando-se o instrumento adequado para a moral racional e até mesmo para a compreensão lúcida das obras reveladas, como o Evangelho:

“Uma pura fé racional é, então, o poste indicador ou a bússola pela qual o pensador especulativo se orienta nas suas incursões racionais no campo dos objetos suprassensíveis, e que pode mostrar ao homem de razão comum e, no entanto, (moralmente) sã, o seu caminho de todo adequado à plena finalidade da sua determinação, tanto do ponto de vista teórico como prático; e esta fé racional é também o que se pode pôr na base de qualquer outra fé, e até de toda a Revelação” (Id.).

Foi exatamente o que Kardec fez com a Gênese e o novo testamento, em seu diálogo com os espíritos. A doutrina espírita foi elaborada com o apoio fundamental da fé racional!


(Trecho adaptado da obra Revolução Espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec, por Paulo Henrique de Figueiredo)

1 comentário


  1. Prezados, muita Paz!
    Gostei muuuuuuuito deste site e vou explorá-lo mais, sob a luz da Razão, para aprender mais do pouco que já sei.
    Obrigado pelo bom trabalho!
    Que Deus abençoe essa maravilhosa equipe!
    André Luiz Oliveira

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