Existe espírita kardecista? Ou se trata de um equívoco?

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Espiritismo kardecista?
Quando criança minha família era espírita desde meus avós, pais, irmãos. Em casa, coisas como mediunidade, espíritos, obras de Kardec, reuniões mediúnicas, efeitos físicos, aulas, seminários, médiuns e escritores espíritas, faziam parte do cotidiano.  Mas naquele tempo (é estranho poder falar isso: “naquele tempo”, deveria deixar essa expressão para quem já viveu 70 ou 80 anos, mas aos 50, peço licença) havia preconceito com quem fosse espírita. Mais ainda se fosse de umbanda, candomblé ou qualquer cultura africana ou afro-brasileira. Muitos espíritas, então, acrescentavam algo, como:

— Sou espírita de mesa branca.

Sempre me intrigou esse título. Afinal, normalmente não havia toalha. E quando tinha era estampada, colorida, enfeitada, rendada. Quase nunca branca, que sabe quem cuida, que toalha branca dá trabalho.

Também ouvia muito dizerem:

— Não sou espírita, falta muito para isso. Tenho muitos defeitos, não posso me afirmar assim.

Mas ser espírita não é ser espírito superior! Logo eu dizia. Sempre li em Kardec, porque desde criança adorava ler enciclopédias ou coleções, fosse Tesouro da Juventude, Barsa, Conhecer, Medicina e Saúde, Clássicos da Literatura Universal, Clássicos da Literatura Brasileira, Seleções ou Reader’s Digest. Mas eu não lia consultando, lia tudo, página por página. Quando me deparei com a coleção da Revista Espírita de Estudos Psicológicos publicada mensalmente por Allan Kardec de 1858 a 1869, fiquei maravilhado. Não era um Kardec dos livros, com aqueles parágrafos bem construídos, frases precisas, exposição didática, fundamentado nas ciências e filosofias. Era um outro Kardec. Parecia que estávamos acessando os bastidores do Espiritismo. Atas das reuniões. Transcrições dos diálogos. Artigos contra e a favor da Doutrina Espírita. Cartas de outros pesquisadores espíritas. Longe de algo pronto e acabado, era a própria transcrição do fazer!

Como ia dizendo, ao ler a Revista Espírita vemos que ser espírita é buscar a compreensão sobre os mais diversos ramos do conhecimento a partir dos ensinamentos dos espíritos superiores. Essa construção não é teológica, que trata dos textos considerados sagrados, a palavra direta de Deus. Não se trata disso. Nem é uma especulação filosófica do autor. Mas uma forma inédita de lidar com as comunicações dos espíritos. É fazer ciência disso tudo.

Em filosofia, cada grande pensador faz seu próprio sistema. Ele precisa cria-lo com coerência entre todas as suas partes. Precisa respeitar todos os critérios da lógica para formar uma doutrina sólida. Todavia, outros filósofos fazem o mesmo, e estabelecem suas ideias a partir de premissas diferentes. Explicam tudo por doutrinas diversas. Por isso, dizemos: a filosofia de Platão. A filosofia de Locke. Ou então filosofia aristotélica, filosofia comteana.

Mas o espiritismo é uma ciência e não um sistema filosófico.

Disse tudo isso para tratar de uma moda que surgiu não sei a quanto tempo, mas segue o rastro das anteriores que citei:

— Sou espirita kardecista.

Alguns, mais chiques, dizem ser espíritas kardecianos.

Mas será?

Quando Einstein elaborou os conceitos da relatividade, sua proposta teve de explicar tudo o que a teoria de Newton explicava e só então ampliar a sua visão da realidade. Ele não criou uma física einsteiniana em paralelo a uma newtoniana. Física é Física. Em qualquer canto do planeta, Física é Física. O que não é, simplesmente não é.

Assim funciona na ciência, uma nova teoria, apresentada quando a anterior já não explica tudo, ou explica mal, precisa resolver tudo o que anterior fazia e ainda dar conta dos novos fenômenos surgidos. Funciona por revoluções científicas. A ciência se estabelece por um processo histórico e progressivo.

O Espiritismo é uma ciência pura e não um sistema filosófico criado por Kardec. Existem inúmeros sistemas filosóficos na história. Mas só há uma Física. Considerar um Espiritismo kardecista permite supor que existam outros e não uma só ciência forte.

Para criar uma hipótese nova no Espiritismo ela terá que respeitar o núcleo forte da doutrina espírita proposta por Kardec ou estabelecer outra teoria inteira que o supere. De outro modo não é nem pertence ao Espiritismo. Espiritismo é Espiritismo. O que não é, não é.

Desse modo, quando me perguntavam na escola, na hora da inscrição, qual a sua religião? Mesmo sabendo que não era mais uma religião, mas uma ciência filosófica com consequências morais, mesmo assim, com todo orgulho (e haveriam sim consideráveis consequências do preconceito):

— Sou espírita!

Simplesmente isso.

Por Paulo Henrique de Figueiredo, autor de Mesmer – a ciência negada do Magnetismo Animal e Revolução Espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec.

9 Comentários


  1. Nossa tb sempre ouvi isso , mas achava q era para diferencia praticas doutrinarias ou maneira de praticar evocações. Em cidade do interior era mais complicado ainda se declarar ESPIRITA na minha época escolar, pois eu me lembre ,era a UNICA na minha escola. Hoje vejo meus filhos nao terem problema algum em declarar em que acreditam.
    Adorei a explicação a respeito, afinal o que é, é!
    Já sei na cabeça, agora falta aprender nas açoes! 🙂
    Abraços

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  2. Paulo Henrique de Figueiredo, parabéns você nos passa com muita Clareza.
    Gratidão por tudo isto.

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  3. E ele já usou um codinome para não lerem a obra por ser ele, mas pelo tema em si, e por ele saber que a obra não era dele, mas ele simplesmente decodificou, sistematizou brilhantemente. E mesmo assim o pessoal fica atribuindo a ele uma doutrina que não veio dele, mas dos espíritos…

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  4. Excelente texto. Sempre questionei esta expressão, espírita Kardecista. Concordo plenamente com o autor do texto; Espiritismo é espiritismo, não há variáveis.

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  5. ainda não consegui aprofundar meus estudos, mas observo o seguinte …talvez que o adjetivo “kardecista” surgiu para diferenciar de outras doutrinas e grupos que tem elementos em comum com a Doutrina fundamentada na Codificação : a vida futura, a imortalidade da alma, a mediunidade …mas que, por ex, não admita entre os seus princípios a reencarnação … então , na prática da comunicação popular, “kardecista” é aquele que em seu foro íntimo aderiu ao conjunto de doutrinas reunidas na Codificação , já que, na prática, passaram a ĉhamar de “espírita” qualquer pessoa envolvida com uma doutrina que admita a mediunidade, o contacto experimental com os “desencarnados ” – se ajuda ou confunde, não ĉheguei ainda a concluir … às vezes se falamos apenas sermos “espírita”, o interlocutor não-espírita tem dúvidas e, nesse instante, ajuntar “kardecista”, ajuda a esclarecer ….

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  6. Isso ai! Nós espíritas precisamos mesmo esclarecer nossa identidade somos o que somos e ponto, as pessoas que se adaptem a nossa ciência filosófica,entendendo o que somos até por que o preconceito vem do modo da gente nao se impor, não querendo empurrar a doutrina goela abaixo das pessoas mas que quem perguntar saiba q somos espíritas e não umbandistas, candomblés etc e tal( nunca desmerecendo ninguém) mas que as pessoas saibam diferenciar quem é quem neste mar de ignorância , abraços a todos

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  7. A humanidade precisa de “Ismo” para seguir. Precisamos ser classificados por ideologias. É notória nossa necessidade de estar inseridos em grupos que partilham nossas aspirações, conceitos e preconceitos. Escolhemos os “ismos” de acordo com nossas conveniências e não pela ciência ou filosofias puras. Se a algo nelas que não combinam com nossa forma de pensar, o q fazemos? Nos modificamos? Não, modificamos a filosofia e criamos um novo “ismo” com a nossa cara. Por isso o cristianismo se tornou catolicismo, protestantismo, espiritismo. E por incrível que pareça, esses 3 ismos nascidos jâ se dividiram em outros ismos também. no Brasil
    A perseguição engendrada pelo catolicismo contra o umbandismo sempre foi notória e cruel. Todo discipulo de religiões de matriz africana, eram chamados pela alcunha pejorativa de macumbeiro. Quando surgiram os primeiros grupos espiritas no país e de como um dos postulados da doutrina é o intercâmbio entre as duas dimensões, assim como na umbanda, o preconceito passou a chamar espíritas também como macumbeiros. Então ubandistas e espíritas passaram a ser perseguidos juntos pela igreja, Polícia e sociedade. Mas como os seguidores espíritas continham parte da elite intelectual e por consequência financeira, muitas vozes se levantaram contra a perseguição. Note-se contra os espiritas que eram cristãos e não os umbandistas. Surge daí o termo Espiritismo Cristão. Então na década de 50 se não me engano, buscando uma aceitassão melhor da sociedade, o presidente da União Umbandista Brasileira, disse: “nos acreditamos nos espíritos e sua influência sobre nós, em reencanação, em Cristo, fazemos caridade e também estudamos o livro dos médiuns. Então também seremos chamados de Espíritas. Como a quase 70 anos a sociedade era bem mais preconceituosa ainda do que hj, voltaram a igualar as duas doutrinas com o mesmo nome: macumbeiros. Isso gerou um mal estar entre os espíritas que não queriam ser confundidos como “macumbeiros”(preconceito?), e voltaram a se autoproclamar: Espíritas Cristãos ou a novidade “kardecistas”. Hoje o termo kardecista se aplica aos que não veem com bons olhos a influência de espíritos mais, digamos, contemporâneos como Emmanuel, André Luiz, Joana de Angelis, Manoel Philomeno de Miranda e etc. Segundo esses “neokardecistas”, muitos dos conteúdos dos livros pisicografados sofre a ingerência dos médiuns e são opiniões pessoais dos Espíritos. Por isso muitos pontos vão contra os preceitos codificados em seus livros e todas as outras suas publicações. E que qualquer outra obra fora das obras de Kardec, não é Espírita e sim espiritualista. E por isso ñ deveriam rstar sendo estudados e divulgados nas cadas espíritas. Acreditem essa forma de pensar tem crescido muito no movimento Espírita. Enfim enquanto formos adeptos dos “ismos”, predominará o personalISMO em vez do amor universal. Pois a verdade de Deus ñ cabe em nenhum sistema ou ideologia.

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  8. PAULO HENRIQUE FIGUEIREDO! Estou tomando conhecimento agora do seu trabalho. Excelente.
    Em 25/08/2012 no meu Site: A Doutrina Espírita ao alcance de todos já opinava sobre o assunto em tela. http://www.lourenjunior.webnode.com.br
    Claro que não existe Kardecismo como há outras religiões espiritualistas – que creêm na vida além da matéria -, criou-se a expressão “Kardecismo” para diferenciar a doutrina de Kardec das outras. O termo, porém, é considerado errôneo tanto pela Federação Espírita Brasileira (FEB) como nosso entendimento. Chamar o espiritismo de kardecismo é considerado uma redundância. Kardec morreu em 1869, aos 64 anos, e seus livros estão para o Espiritismo como o Novo Testamento para os cristãos, a Torá para os judeus e o Alcorão para os muçulmanos

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