A revolucionária quase desconhecida moral espírita

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A grande maioria dos espíritas viveu uma criação católica ou protestante, em virtude da tradição de suas famílias. Cresceu ouvindo as missas, catequeses, aprendendo a metafísica dogmática das igrejas. Nesses ensinamentos, Deus teria uma relação dominadora semelhante à humana com seus filhos. Sua lei é absoluta, eterna, mas desconhecida dos homens, mergulhados que estão no pecado original. No entanto, exige a absoluta submissão aos seus desígnios. Aqueles rebeldes, que cometem pecados, se não se arrependem e aceitam o castigo em suas vidas, são punidos eternamente, quando do julgamento final.

A imagem que fica desse panorama é a de um mundo degenerado, habitado por seres sujeitos à tentação do pecado, frágeis, sofredores, impotentes. Há um medo inconsciente de errar. Parece que é melhor não fazer nada do que cair no engano. Essa postura é paralisante, impede o interesse pelo novo, no desafio de tatear o desconhecido. A tradição, os hábitos costumeiros, o passado, tudo isso parece conter a garantia e o bem estar de agradar à divindade. A mudança e a novidade tornam-se inimigas, destruidoras e devem ser evitadas a todo custo. Diz-se que, na dúvida, melhor ficar como está.

Muita gente, porém, não aceitando a irracionalidade dos dogmas, considerando-os estagnantes, repele esses preceitos, em busca de algo novo, que abrace sua esperança, que conforte sua visão do futuro.

O Espiritismo, desse modo, surge como uma grata alternativa.

Mudam-se os hábitos na chegada ao centro espírita. O convite à palestra pública. O tratamento de passes. Os conselhos ouvidos nos corredores. Aos poucos, vai se conhecendo a reencarnação, o mundo espiritual, o perispírito, a responsabilidade pelos atos do passado. Alguns, mais interessados, buscam os cursos, para conhecer mais profundamente a doutrina espírita. Depois, adentram as diversas tarefas de assistência, arrecadação ou atividades interiores da casa.

No entanto, e aqui está o ponto fundamental deste artigo, costumeiramente o novo frequentador do centro espírita muda o vocabulário, alterna os costumes, mas o raciocínio metafísico, presente lá no fundo da personalidade, permanece o mesmíssimo de antes. Antes as palavras eram sofrimento, castigo, pecado original, céu, inferno, anjos, demônios, ressurreição. Agora os termos são outros, ainda se fala de castigo e sofrimento, mas os demais são substituídos por carma, espiritualidade superior, umbral, espíritos superiores, obsessores, regeneração. Palavras novas, ideias velhas.

O pecado original de Adão é substituído pelos erros do passado como causa dos sofrimentos desta vida. O Deus que pune e se vinga permanece no mesmo lugar lá no céu. E aqui na Terra continua o medo, a insegurança, o receio, a tentativa de barganha, e outros comportamentos derivados dos milenares ensinamentos heterônomos.

Heteronomia é a moral que coloca o indivíduo submisso a uma lei externa, à qual deve obedecer pela fé cega. É a moral da coação. Submete-se incondicionalmente às ordens para ser recompensado, e ao desobedecer ganha a punição. Os indivíduos competem entre si para ocupar o lugar dos beneficiados ou dos condenados. Punição, recompensa, competição, tudo isso pertence à moral heterônoma. Essa tem sido a orientação do clero tanto na orientação dos fiéis como também na educação das crianças e jovens na escola e em seus lares.

Em verdade, também a orientação materialista é heterônoma. Desse modo, a escola dos jesuítas do passado, que castigava o erro e recompensava o acerto, — promovendo uma relação competitiva entre os alunos para classifica-los do “pior” ao “melhor” — é a mesma escola tradicional atual, sob orientação materialista, que vê o homem como um animal, submetido ao mesmo adestramento daqueles. Trata-se o jovem com o método utilizado para tornar um cachorro dócil, obediente e treinado.

Por desconhecimento, quase ninguém fala, quando trata do Espiritismo, de sua revolucionária moral, a teoria esquecida de Kardec. E é exatamente ela que faz toda a diferença. Dedicamos as 640 páginas da obra Revolução espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec para explicar minuciosamente essa ideia.

Enquanto todas as tradições religiosas do velho mundo, e também a orientação materialista atual nascida no século passado, são doutrinas heterônomas quanto à moral. E o Espiritismo é a única proposta orientada pela autonomia moral.

O indivíduo que rege sua atuação social pela autonomia, toma como diretriz de suas escolhasKant_caricature o pensamento racional. Pensa, avalia a situação e escolhe a melhor atitude, a que favoreça o maior número de pessoas envolvidas. Afinal, as leis de Deus estão gravadas em nossa consciência, e na medida que as compreendemos na prática cotidiana, desenvolvemos o sentido do dever. Isso, é claro, quando não se concentra apenas nos desejos e interesses pessoais, o que leva ao egoísmo e orgulho, imperfeições que desviam o espírito de sua natureza.

Quem age de forma autônoma, não te medo de errar, pois sabe que  tentativa e erro fazem parte do processo de aprendizado. Enfrentar o desconhecido é a única maneira de avançar intelectual e moralmente.  É necessária a coragem de expor a ignorância, perguntar e aprender com o exemplo do mais sábio, tentar as hipóteses, observar os resultados, agir diferente, comparar, escolher o melhor. Depois avançar para uma situação mais complexa. Tudo isso acompanhado pelo prazer da descoberta, o entusiasmo de ser útil, a alegria da iniciativa pessoal.

O Espiritismo demonstra que o mundo espiritual e a relação entre os espíritos esclarecidos se dá naturalmente pela autonomia. Quem age no bem o faz livre e voluntariamente; as atividades mais complexas são exercidas naturalmente pelo que mais sabe, e aprendeu por seu esforço. A palavra de ordem é a cooperação, nascida da atitude solidária, da responsabilidade consciente.

A tarefa da construção de um mundo melhor, por ser mais justo e solidário, se dará pela adesão voluntária de cada um a essa revolucionária moral autonoma. Agir de acordo com a consciência, pelo dever que tem valor em si mesmo, sem almejar recompensas ou privilégios. Como afirmou Allan Kardec, definindo o livre pensamento ou fé racional que caracteriza o verdadeiro espírita:

“Ele simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; ele não quer mais escravos do pensamento do que escravos do corpo, porque o que caracteriza o livre pensador é que ele pensa por si mesmo e não pelos outros, em outras palavras, que sua opinião lhe pertence particularmente. Pode, pois, haver livres pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre pensamento eleva a dignidade do homem; dele faz um ser ativo, inteligente, em lugar de uma máquina de crer.” (Revista Espírita de 1867, página26).

5 Comentários


  1. Paulo, nesse contexto, como ficariam caracterizados os atos de ‘intercessão divina’? São descritos como algo recorrente na História de todas as religiões, mas são fenômenos heterônomos, não? Como compreender o papel do livre-arbítreo/merecimento nessa relação com o ‘invisível’?

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    1. Eduardo, os espiritos superiores ensinaram na Doutrina Espírita que a evolução dos espíritos se dá desde simples e ignorante até os espíritos bons. Toda essa trajetória ocorre pela livre iniciativa de cada um. O livre arbitrio é uma conquista progressiva, na medida da conquista individual do conhecimento e da moral. A plena liberdade é sempre respeitada na espiritualidade. Para reencarnar, cada um escolhe as provas adequadas para servir-lhe como desafio. Quando há uma intercessão dos espíritos guardiões, ela ocorre no sentido de dar forças, esperança, motivação para a conclusão de nossas metas. Dessa forma, sendo a moral autônoma a condição natural dos espíritos, todo progresso é meritório!

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    2. A “intercessão divina” pode resultar devido a dois aspectos: o primeiro seria aquilo que está dentro de um planejamento divino e sua execução na escala do tempo e com missões ou tarefas encarregadas a determinados espíritos que encaram para tanto, visando a revelação espiritual para as comunidades terrestres e o seu progresso e, o segundo, é o atendimento às preces intercessórias, em que é verificado o mérito de quem solicita e cujo atendimento se dá de acordo com o que a espiritualidade superior considerar mais conveniente para a situação e os envolvidos, respeitando sempre o princípio do livre arbítrio. Além disso, sempre é levado em consideração o progresso espiritual que deve ser alcançado, conforme já colocado pelo Paulo Henrique.

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  2. O Magnetismo preparou os caminhos do Espiritismo, e os rápidos progressos dessa última
    doutrina são, incontestavelmente, devidos à vulgarização das idéias da primeira. Dos
    fenômenos magnéticos, do sonambulismo e do êxtase, às manifestações espíritas, não há
    senão um passo; sua conexão é tal que é, por assim dizer, impossível falar de um sem falar
    do outro. Se devêssemos ficar fora da ciência magnética, nosso quadro estaria incompleto, e
    se poderia nos comparar a um professor de física que se abstivesse de falar da luz. Todavia,
    como o Magnetismo já tem entre nós órgãos especiais, justamente autorizados, tornar-se-ia
    supérfluo cair sobre um assunto tratado com a superioridade do talento e da experiência;
    dele não falaremos, pois, senão acessoriamente, mas suficientemente para mostrar as
    relações íntimas das duas ciências que, na realidade, não fazem senão uma. Revista Espirita ano I março 1958 pg.90

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    1. Realmente, sendo a ciência do Magnetismo Animal bastante presente na cultura de seu tempo, Kardec apenas fez indicações da importante relações entre ela e o Espiritismo. Para retomar esses valores, publicamos a obra: Mesmer, a ciência negada e os textos escondidos. No entanto, na recente obra Revolução espírita, há um capitulo bem completo sobre as ciências irmãs, Magnetismo Animal e Espiritismo. Confira!

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